Se vamos passar a vida a dividir tarefas em casa, ninguém se especializa em coisa nenhuma

– Amanhã não consigo ir com o teu carro à inspeção.
– E agora?
– Ou o levas ao mecânico e vai ele ou vais tu num instante.
– Eu? Eu não percebo nada disso.
– É só chegares, pões o carro onde dizem e eles tratam de tudo. Não custa nada. Eu também não percebo nada de mecânica e faço isto.
– Não me peças isso. Vai tu.
– Não estou a pedir nada. Tu é que me estás a pedir. O carro é teu.
– Mas és tu que costumas tratar disso. Dos carros.
– Mas amanhã não posso. Tenho coisas para fazer.
– E onde é que é?
– Onde quiseres. O que não faltam por aí são centros de inspeção. Vê na net o que te dá mais jeito. Olha, e podes tratar tu daquele interruptor?
– Qual interruptor?
– O que está partido. Já comprei outro, é só substituir.
– Mas por que é que não fazes tu isso? Eu não sei, não percebo nada de eletricidade.
– Não custa nada, eu explico-te. E deve estar na internet. Deve haver vídeos a explicar essas coisas.
– Olha lá, estás a gozar comigo?
– Não. Estou a falar a sério. Eu fui ao YouTube procurar um vídeo para fazer uma bainha. Estava lá. E bem explicado.
– Já percebi porque estás com esta conversa. Por causa da bainha que me pediste para fazer, porque achavas que sabia porque sou mulher. E ficaste chateado porque te mandei ir à net aprender.
– Já estás a baralhar tudo e a levar a coisa para a luta da igualdade de género. Nem eu estou a fazer isto por causa disso, nem eu fiquei chateado por ter ido à net aprender uma coisa que nunca fiz e que tu fazes mil vezes melhor do que eu. Eu não misturo as coisas.
– Nota-se. Vê lá se não te mexeste e não fizeste mesmo a bainha? E vê lá se não ficaste tão danado que agora nem mudas o interruptor?
– Não és tu que dizes que temos de saber fazer tudo? E que se a nossa mãezinha não nos ensinou podemos ir à internet aprender? Então… Se o teu pai não te ensinou a mudar um interruptor como o meu me ensinou, vai fazer o mesmo que eu fiz, porque a minha mãe não me ensinou a fazer bainhas: aprende na internet.
– Eu aprendo, mas se ficar mal podes ficar eletrocutado. Ao passo que se a tua bainha ficar mal, o pior que acontece é ficares com uma perna maior do que a outra. Queres comparar?
– E o carro? Também precisa de uma grande ciência? Não me importo de ir eu, mas por que não podes ser tu a tratar?
– Mas de onde é que veio isto tudo agora? Vamos passar a dividir tudo? Não há coisas que eu trato e outras que tu tratas?
– Ora aí está. É isso mesmo. Claro que há. Eu defendo isso. Tu é que não. Tu pensas é que eu só quero fazer as tarefas de homem e que só te peço para fazeres as de mulher. E não é nada disso.
– Ai não? É tudo imaginação minha?
– Se há coisas que tu fazes melhor do que eu e outras que eu faço melhor do que tu, porque é que temos de levar sempre isto para a igualdade de género e os direitos das mulheres? Dividimos tarefas em função das nossas capacidades, não em função da biologia.
– Não é biologia, é educação. E cultura.
– Mas eu não tenho culpa de que a minha mãe não me tenha ensinado a fazer bainhas. Nem tu tens culpa de que o teu pai não te ensinasse a mudar interruptores.
– Ele não sabe mudar interruptores.
– E agora? Vais ficar chateada com ele? Com o teu avô, que não o ensinou? Ou vais aceitar que há coisas que eu faço bem e outras que tu fazes bem e não discutimos por isso?
– E levas o meu carro à inspeção amanhã?

[Publicado originalmente na edição de 7 de fevereiro de 2016]