Segunda oportunidade: a primeira coisa mais importante depois da desilusão

 

HÁ CERCA DE DOIS ANOS tive uma discussão feia com um vizinho do meu bairro. Trocámos palavras feias e a coisa não acabou bem. Tudo por causa do meu carro, estacionado em frente ao prédio dele: estava coberto de pedras, algumas bem grandes, resultado das obras na fachada do edifício. Administrador do condomínio, essa figura de xerife encartada da aldeia urbana, questionei-o enquanto responsável pela obra. Passados alguns minutos, estávamos aos gritos. Ele a berrar que eu não podia deixar ali o carro mais do que dois dias e que tinha de me sujeitar, eu a gritar mais alto, dizendo que agora deveria pagar uma pintura nova.
A PEIXEIRADA NA VIA PÚBLICA terminou com a chegada da polícia e com uma queixa na esquadra. E, dias depois, com uma conta de lavagem, que o senhor pagou. Afinal não foi preciso pintura nova. Mas nem no momento em que desembolsou os 13 euros nem quando o confrontei pela primeira vez foi capaz de pedir desculpa. Reconhecer que devia ter tido mais cuidado. «Desculpe lá, estas coisas acontecem, tem razão, vou pagar a lavagem, diga lá se há algum dano no carro e resolvemos isso.» Não ouvi nada disto. Não ouvi nada.

 

FOI TAL A GANA com que lhe fiquei que comentei o sucedido com alguns vizinhos. Visto agora à distância, podia ter evitado os desabafos em forma de queixinhas. Mas serviram, afinal, para confirmar a suspeita: indivíduo particularmente conflituoso, o homem envolvia-se em discussões frequentemente, no café já lhe tinham recusado atendimento e até o canalizador do bairro já lhe espetara um soco direto no queixo por falta de pagamento. A informação não me deixou mais satisfeito. Apenas confiante de que não tinha sido uma embirração minha.
NOS ÚLTIMOS DOIS ANOS cruzei-me várias vezes com ele. Na semana passada, porém, vi-o pela primeira vez com o neto. Levava o braço à volta da cintura do homem. Não sei do que falavam, mas riam-se. E fosse qual fosse o tema, motivou uma festa na cara do miúdo de 6/7 anos. Que lançou a frase: «Tu sabes do que eu gosto, avô.»
ENTÃO O PERFEITO ANORMAL DO VIZINHO afinal é um avô extremoso? O idiota mal-educado afinal parece um ser humano decente? O baixote desagradável afinal é um tipo que tem gestos de carinho com o neto? Não sei bem porque fiquei surpreendido, na verdade. O amor e proteção familiares, ainda que mal distribuídos, são das coisas mais universais da humanidade. E um avô que gosta do neto é afinal a prova disso. Independentemente dos defeitos que lhe possam atribuir. As conclusões que tirei sobre o senhor basearam-se em estatística e matemática: a minha opinião, mais as opiniões dos vizinhos multiplicadas pela raiva com que lhe fiquei. Nada mais sei sobre ele. Ora, por isso mesmo, e apesar de todos os adjetivos com que o mimoseei, acabei por dar uma segunda oportunidade àquele homem. Ele não precisa dela. Eu é que precisei de lha dar.
A VELHA MÁXIMA QUE REZAque não temos segundas oportunidades para causar uma boa primeira impressão é verdadeira. Quase uma evidência absoluta. Mas também é verdade que as segundas impressões são, por vezes, as mais reais. As que perduram. Quando conheci a minha mulher, achei-a gozona, quase desagradável. Ela achou–me vaidoso, insuportável. Quinze anos depois reencontrámo-nos. Não voltámos a largar-nos desde essa noite no Bairro Alto. Abençoada segunda oportunidade. Pode ser que um dia conte esta história ao meu vizinho…

 

Publicado originalmente a 21 de setembro de 2014.