Como é que um segundo filho afeta a relação dos pais?

Ter filhos é talvez a decisão mais importante na vida de um casal. Tudo muda quando a família aumenta. E, se para alguns é sinónimo de felicidade, para outros, tentar equilibrar a nova dinâmica pode ser motivo de stress e conflitos.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Shutterstock

Em Portugal, segundo o estudo “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, realizado pelo Laboratório de Demografia do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora (UÉ) e com base nos dados do Inquérito à Fecundidade 2013, 29% dos residentes em Portugal têm apenas um filho.

Segundo o inquérito, o número médio de filhos das mulheres com idades entre os 18 e os 49 anos e os homens dos 18 aos 54 era igual a 1,03. Se um filho altera tudo na rotina do pai e da mãe, um segundo pode tornar essa rotina caótica.

Ter um segundo filho pode resultar em mais pressão para o casal, o que pode levar a uma deterioração do bem-estar psicológico de ambos, diz um estudo da Universidade de Melbourne.

Um novo estudo da Universidade de Melbourne sugere que ter um segundo filho resulta em mais pressão para o pais, o que pode levar a uma deterioração do bem-estar psicológico de ambos. Para chegarem a esta conclusão, os especialistas seguiram uma amostra 20 mil pessoas durante 16 anos.

O objetivo foi observar, ao longo do tempo, o que acontece aos pais quando têm filhos. As duas principais perguntas a que se propuseram responder foram: “As coisas melhoram quando as crianças crescem?” e “o que acrescenta um segundo filho a um ambiente que pode ser stressante?”

O psicólogo Vítor Rodrigues rejeita generalizações: “Por vezes o primeiro filho até tem maior impacto que o segundo porque os hábitos mudam e a vida sexual, por exemplo, é fortemente perturbada.”

Concluíram que os pais de primeira viagem demonstram uma melhoria significativa da saúde mental após a primeira criança. Uma nova responsabilidade, a sensação de objetivo alcançado e ter outro ser humano a seu cargo são motivadores para a felicidade nesta nova fase.

Quando chegou o segundo filho, a conversa tornou-se diferente. Na amostra estudada, os casais que tiveram o segundo filho sentiram um aumento de pressão para cumprir horários e cuidar, adicionando, assim, uma carga negativa considerável na saúde mental e física, tanto da mãe como do pai.

Esta conclusão levanta questões ao psicólogo Vítor Rodrigues, que discorda da generalização. “Para começar, por vezes o primeiro filho tem maior impacto que o segundo porque as pessoas são apanhadas de surpresa. Não têm experiência anterior, os hábitos mudam ou, por vezes, a vida sexual é fortemente perturbada.”

Bianca Rodriguez, terapeuta de casais, explica porque os resultados do estudo não a surpreendem. “Costuma dizer-se que ter uma criança é o que se espera, mas ter duas é como ter dez.”

Outra das conclusões da pesquisa, esta menos surpreendente, foi que, com mais uma criança a cargo, são as mulheres que sentem um maior impacto.

«Ainda que se note o declínio mental nos homens, há uma estabilização da saúde mental, com o tempo. Acabam por não passar pela mesma pressão crónica que as mulheres sentem, ano após ano», explica o estudo.

Tal resultado pode dever-se ao tempo que as mães passam em casa após o parto ou o peso que ainda se coloca no lado feminino, no sentido de que as mulheres continuam a ser as principais cuidadoras, deixando para o pai o papel de auxiliar da educação.

Bianca Rodriguez, terapeuta de casais, explica porque os resultados do estudo não a surpreendem. «Costuma dizer-se que ter uma criança é o que se espera, mas ter duas é como ter dez. Tal deve-se à quantidade de atenção que duas crianças necessitam na primeira fase da vida.»