Será assim tão difícil fazer (o) bem?

Parece que fazer o bem não só não é difícil como dá prazer e nos faz sentir mais felizes. O altruísmo é uma vantagem evolutiva e é um dos comportamentos responsáveis por termos saído das cavernas e chegado até aqui. «Até aqui» é bom? A pergunta é legítima.

De facto, dá ideia de que nos últimos tempos estamos a involuir, que é evoluir mas ao contrário. Eu acho que, apesar de tudo e por incrível que pareça, «até aqui» é bom.

Uma vez entrevistei Tal Ben-Shahar, especialista em psicologia positiva e que lecionava um dos cursos mais populares de Harvard – o de felicidade – e dizia-me ele nessa entrevista que há muito mais coisas positivas, boas e bonitas e acontecer no mundo do que más, por isso é que as más têm mais visibilidade e impacto. Porque chocam. Continuam a chocar. Enquanto isso acontecer, há esperança.

Se a preocupação com os outros, a generosidade, a bondade, a partilha desinteressada e o altruísmo são uma questão de educação, é hora de apostar nesses modelos educativos. Não dá muito trabalho.

Por isso é que acho que «até aqui» é bom. Aqui ainda nos choca a maldade, o egoísmo, a irresponsabilidade, a falta de preocupação com o outro. Estamos em época de Natal e Ano Novo e foi a pensar nisso que escolhemos perceber o que a ciência tem a dizer sobre o altruísmo e a generosidade.

A jornalista Ana Pago leu uma série de estudos, entrevistou vários cientistas e fez um excelente trabalho que pode ler aqui. Entre outras boas notícias, retive esta: anos de investigação levada a cabo pelas neurociências atestam haver mudanças estruturais e funcionais no cérebro quando treinamos o altruísmo, o que abre caminho a modelos educativos que permitam fomentá-lo de raiz.

Se a preocupação com os outros, a generosidade, a bondade, a partilha desinteressada e o altruísmo são uma questão de educação, é hora de apostar nesses modelos educativos. Não dá muito trabalho.

Já foram inventados, como nos dá conta a psicóloga Teresa Andrade: «Existem amplos estudos sobre isso na pedagogia de Maria Montessori, Celestin Freinet, Carl Rogers, Jean Piaget, Paulo Freire, Agostinho da Silva, Lev Vygotsky e tantos mais.» Os ganhos seriam enormes. No que respeita à evolução da espécie. E da sociedade.


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