“Será que antes visitávamos e abraçávamos amigos e familiares tanto como gostaríamos de fazer agora?”

Diana Prata, investigadora do Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Quais os efeitos secundários do distanciamento social e do isolamento ditados pela pandemia de covid-19 na nossa capacidade de cooperação, no altruísmo, empatia, cuidado e afeto? Foi o que perguntámos a Diana Prata, investigadora que estuda a oxitocina, hormona-chave no fortalecimento de laços entre as pessoas.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

No Diana Prata’s Lab, no Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em parceria com o Centro de Investigação e Intervenção Social do IUL- ISCTE, estuda-se uma hormona chamada oxitocina, também conhecida como “hormona do amor”, que se sabe hoje estar implicada nos processos cognitivos relacionados com a confiança no outro, a cooperação, o altruísmo e a empatia, mas precisa de proximidade para ser produzida.

A pandemia de covid-19 obrigou ao distanciamento social e ao isolamento, o que poderá levar a uma diminuição dos níveis de oxitocina no cérebro, mas por razões mais altruístas do que egoístas, o que poderá levar a um aumento dos níveis de oxitocina no cérebro. Em que ficamos? Foi o que procurámos saber nesta conversa com Diana Prata.

O toque, a intimidade e a proximidade são importantes na produção de oxitocina.
A pandemia de covid-19 cancelou abraços e beijos e isolou em casa milhões de pessoas. Pode enfraquecer os laços entre as pessoas?

É verdade que o isolamento social imposto pela epidemia vem impossibilitar o toque, a intimidade física e o convívio físico com muitas pessoas na nossa vida, que sabemos que fazem aumentar a produção de oxitocina no cérebro e, por conseguinte, fortalecem as relações pessoais. Mas não é verdade que isso não aconteça com outros métodos de contacto/comunicação, como uma conversa ao telefone ou por Skype.

Já foi demonstrado que crianças que ouviram a voz da mãe mostraram aumento do nível de oxitocina no sangue, o que não aconteceu quando ouviram a voz de um estranho, e que a voz funciona muito melhor do que um e-mail ou um chat escrito para esse efeito (casos em que o aumento da produção de oxitocina não foi significativo).

As redes sociais e as novas tecnologias, que têm sido fundamentais nestas semanas para manter por perto quem está longe, podem substituir o toque e a proximidade?

A tecnologia serve muitas vezes para “enganar o nosso cérebro”, isto é, fingir que uma coisa está ali quando não está (uma televisão, uma história de ficção, etc.) e, se for convincente, desencadeia os mesmos processos bioquímicos que a realidade desencadearia. O apreço pela arte é muitas vezes isso!

Portanto, o isolamento social físico em si não é a maior ameaça. A maior ameaça é o isolamento social, ponto, que possa advir dessa falta de oportunidade de estar em companhia com o outro, que pode acontecer por não nos podermos mover livremente, nem para os locais do costume.

Claro que as redes sociais online, os smartphones e as videochamadas são sempre um second best, uma alternativa panaceia, mas neste momento têm um valor que acho que envergonha até os mais ferozes críticos destas novas tecnologias.

Se calhar, falamos mais com os nossos pais e com os nossos amigos agora do que falávamos antes.

Sim. Esta altura também me parece útil para refletirmos justamente sobre se, mesmo quando podíamos circular livremente, dávamos o devido valor ao contacto social, nomeadamente o físico, de que agora estamos a sentir tanta falta.

Será que visitávamos, e abraçávamos, os amigos e os familiares; dançávamos a pares, almoçávamos juntos, substituíamos alguns e-mails por conversas com os colegas, tanto como gostaríamos de estar a fazer agora? Nada de novo quanto a ser mais fácil dar valor ao que não se tem. Mas talvez valha a pena manter isso em mente quando as portas se abrirem.

Não esqueçamos que, mesmo sem darmos conta, o convívio social (positivo) é um comportamento que nos protege da maior parte dos distúrbios mentais (o stress, a ansiedade, a depressão, a demência, etc.), que nos ajuda a recuperar quando sofremos delas, e que mais pena temos de não ter tido quando estamos à beira do fim da vida (dizem os pacientes terminais).

E de outra forma, mas chegando ao mesmo ponto, há pessoas que agora estão a ficar mais em casa, e a passar mais tempo com as suas crianças e os seus animais de estimação (que são definitivamente os grandes sortudos desta história toda), e que por isso talvez estejam a repensar o possível rácio excessivo trabalho-casa que tinham.

Este isolamento, e o seu cumprimento, tem o lado altruísta de proteger os outros da doença – pais e avós, por exemplo, e em última análise a comunidade em geral -, mas poderá também funcionar como antídoto e até fortalecer esses laços?

Sem dúvida! É importante perceber que a atitude mais pró-social nesta situação de epidemia é na verdade o isolamento social (físico!). E também é curioso que embora o que mais comuniquemos uns com os outros nas redes sociais e nos media seja “afastem-se uns dos outros”, no fundo estejamos a passar essa mensagem, e tudo sobre o covid-19, bem como as criações artísticas caseiras para combater o aborrecimento, da forma mais conectada de sempre.

Acho que nunca o mundo esteve tão sincronizado na mesma mensagem, notícia, história, acontecimento como agora (graças à tecnologia e ao modus operandi eficientíssimo deste vírus), e ainda mais, com uma causa comum de ação conjunta para o bem de todos.

Claro que ouvimos também histórias de bloqueios de aviões para usurpação das máscaras, etc., e fake news que nos forçam a jogar ao “telefone estragado”. Mas, enfim, não era agora que íamos ficar de repente sem psicopatia e competição imoral no mundo.

Esta pandemia levou à criação, nos vários países, de um certo sentido de proteção dos seus, num quase mecanismo de tribo. A oxitocina tem que ver com isto? Que aspetos positivos é que isto tem e que aspetos negativos pode vir a ter?

Sim, pensa-se (com confiança “científica”) que a sensação de tribo, de defesa da mesma e, dentro dela, dos mais próximos (genética e vivencialmente) é mediada pelos circuitos neuronais da oxitocina. O aspeto positivo é para quem faz parte dessa tribo. O negativo vem para quem não faz.

Pensamos que a oxitocina nos “ajuda” a fazer essa distinção out e in-group e a agirmos como é mais favorável para nós, que significa: em escassez de recursos ou ameaça externas (e no tempo primitivo tínhamos muitas mais que agora…), cooperarmos com os nossos próximos (da tribo, in-group) e competirmos com os do out-group.

Mas o caso da epidemia é especial porque, por um lado, há uma ameaça externa que pode levar a escassez de recursos (as máscaras, os ventiladores, até agora…), mas por outro também percebemos que a nossa sobrevivência passa pela sobrevivência dos outros, esses outros que se antes nos pareciam de outra tribo (out-group), agora percebemos que até são da nossa. Porque a nossa tribo nos dias de hoje é no fundo gigante, à escala do planeta (graças à internet e aos aviões…).

As precauções que a China (não) tomou nos seus mercados de rua e depois na contenção do vírus afetam a nossa saúde umas semaninhas depois. E, numa escala mais pequena, a proteção das pessoas do meu concelho depende de mim, e eu dependo dos médicos, que por sua vez também dependem do meu isolamento para poder continuar a viver e a trabalhar – mesmo se eu não conhecer pessoalmente nenhuma destas pessoas (como parte da minha tribo “convencional”).

É curioso. Embora não possamos mudar o modus operandi do nosso sistema de oxitocina (aperfeiçoado ao longo de milhares de anos) que “dita” para colaborarmos só com a tribo (de que conhecemos umas cem pessoas) em tempos de crise, estamos cada vez mais a perceber que as crises neste “mundo conectado” são cada vez mais “partilhadas” com os outros, mesmo que não os conheçamos. Portanto, sendo a nossa tribo global, não restam out-groups e, ao consciencializarmo-nos disso cada vez mais, a nossa oxitocina “há de dizer-nos” cada vez mais “keep calm and cooperate“.

Um dos movimentos a que assistimos em Portugal foi precisamente à criação de redes de solidariedade para apoiar aqueles que estão em casa – os mais velhos – e têm maior risco de sair. Como interpreta, do ponto de vista da sua investigação, esta reação altruísta?

Fico simplesmente feliz porque, lá está, passaram-se barreiras da perceção física do que é a nossa tribo, dela já não fazem parte só as pessoas que conhecemos pessoalmente e que estão fisicamente próximas. Antes eram só essas que afetavam a nossa vida. E só essas “valia a pena” ajudar, mas, como estamos a habituar-nos a viver cada vez mais num mundo em que dependemos de estranhos, faz sentido que os englobemos na nossa “tribo”.

E a partir desse momento passamos a nutrir por eles a mesma empatia emocional que temos pelos nossos conhecidos: sofrer quando eles sofrem. E procuramos amenizar esse sofrimento mútuo, tentando aliviar o do outro e, consequentemente, o nosso. Está relacionado com o dever moral. É abstrato e filosófico, mas passa por processos neurobiológicos de empatia. Como referi, ajudar o outro seria um comportamento natural a ter com os da nossa tribo. E isso apoia as ideias que a neurociência e o meu laboratório têm avançado de que atos de cooperação estimulam o nosso circuito cerebral de recompensa e prazer.

Estamos a tentar demonstrar isso a nível molecular, mostrando que a oxitocina interage com a dopamina, literalmente, cooperam a nível celular (passando a metáfora) de forma que seja codificado ao organismo (a pessoa) a perceção de que um ato de altruísmo social seja prazenteiro, e, até prova em contrário (uma traição do outro, por exemplo), é para continuar a repetir. E assim se formam as relações de amizade, que aposto que estão a surgir e a fortalecer-se com essas pessoas mais velhas e agora vulneráveis.

Acho que ainda há economistas a franzir o nariz a isso por que não topam a existência de almoços grátis. Pero que los hay, los hay.