Sexo com os pés

pés fetiche

Há quem diga que, no cérebro, ocupam uma zona vizinha da que comanda os órgãos genitais. Freud, claro, descobriu-lhes semelhanças com o pénis e classificou-os como substituto fálico. A verdade é que os pés são objeto de um dos fetiches sexuais mais comuns.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de I-Stock

Poucos são os que lhes ficam indiferentes e é no verão, quando a maioria os traz à mostra, que nos damos conta da importância que os pés podem assumir, para nós e para os outros.

Podem ser determinantes tanto em termos de autoconfiança como de bem-estar físico e podem até influenciar a forma como somos vistos e vemos os outros. Quem nunca olhou para os pés de alguém e o que viu pesou na imagem que formou da pessoa?

Andamos, se calhar mais do que gostaríamos, de olhos postos nos pés uns dos outros e isso pode exercer em nós um efeito de atração ou de repulsa.

Sim, os pés desempenham um papel nas nossas primeiras (e segundas?) impressões. Se são elegantes ou sapudos, se estão bem tratados ou parecem a superfície (seca e gretada) de um terreno inóspito, se têm as unhas arranjadas e limpas ou mal cortadas, desleixadas ou, pior, tão compridas que fazem lembrar um ancinho, se têm calos, joanetes, dedos tortos… A verdade é que andamos, se calhar mais do que gostaríamos, de olhos postos nos pés uns dos outros e isso pode exercer em nós um efeito de atração ou de repulsa.

E quem diz pés diz o que lhes está associado, como sapatos e meias. Os sapatos, além de serem outra conhecida tara, são um valioso indicador do gosto e da personalidade alheios. As meias, ui, as meias dariam pano para mangas.

O fetiche implica excitação e satisfação sexual com objetos ou partes do corpo não genitais, que assumem função erógena primordial para o fetichista.

Não entrando na discussão sobre se é admissível ou devia implicar algum tipo de contraordenação grave passar a vias de facto (estamos a falar de sexo, sim), sem as tirar, há que admitir que também elas fornecem todo um manancial de informação sociopsicocomportamental. Ainda assim, nada que levasse Freud a debruçar-se sobre o assunto (e daí, nunca se sabe).

O fetiche é outra coisa. Implica excitação e satisfação sexual com objetos ou partes do corpo não genitais, que assumem função erógena primordial para o fetichista. O fetichismo, considerado uma parafilia ou comportamento sexual desviante (classificação cada vez mais em desuso quando o sexo é entre adultos e de forma consensual), torna-se transtorno e assume carácter patológico quando tem consequências negativas para o próprio ou para terceiros e quando é satisfeito de forma não consensual.

Entre os fetiches mais comuns (e mais inofensivos) está o fetiche com pés, que não só são fator de excitação como de prazer para o fetichista (os homens estão em maioria em relação às mulheres no que a fetiches diz respeito).

Há que dizer que um fetishista que se preze é exigente, minucioso e dá atenção aos pormenores, mas até pode acontecer que a única coisa que tenha em comum com um seu par seja a paixão por pés. O que os excita pode variar muito quanto ao tamanho, à forma, ao cheiro e à textura, pode estender-se aos adornos, aos acessórios e aos sapatos ou limitar-se à versão nua.

Não faltam hashtags, sites, grupos e comunidades com milhares de seguidores dedicados ao #footfetish, ao #feetfetish e derivados.

O que fazem com eles para ter prazer também é diversificado: tocar, beijar, lamber, chupar, massajar, esfregar ou ser esfregado, ser pisado, enfim, é uma questão de imaginação, mas não é por acaso que a podolatria ou podofilia, como também é designado em português este fetiche, está entre as práticas mais comuns do universo BDSM (bondage, disciplina dominação, submissão, sadismo e masoquismo).

Uma breve pesquisa no Google (e em redes sociais como o Instagram, o Facebook ou o Twitter) pode ser reveladora. Não faltam hashtags, sites, grupos e comunidades com milhares de seguidores dedicados ao #footfetish, ao #feetfetish e derivados. Porquê este fascínio e a sexualização dos pés? Não há nenhum estudo científico exaustivo que dê uma resposta definitiva. É bem possível que não exista mesmo essa resposta. Mas há quem tenha tentado dá-la.

A podofilia, ou podolatria, pode estar ligada ao facto de os pés e os genitais ocuparem áreas adjacentes do cortéx cerebral e poderem “entrar em diálogo”.

Sabe-se que Freud discorreu sobre o assunto e, surpresa das surpresas, acreditava que os pés são sexualizados porque se assemelham ao pénis, funcionando, pois, quando é caso disso, como um substituto fálico.

Um estudo de 1989 publicado nos Psychological Reports e citado pela Psychology Today, num artigo sobre as possíveis explicações para o fetiche com pés, sugeria que uma maior incidência da podolatria poderia ser uma resposta ao aumento de doenças sexualmente transmissíveis.

A maioria dos que encontram nos pés um motivo acrescido de excitação e prazer sexual vive bem com o seu fetiche.

Mais recentemente, o neurologista indiano Vilayanur Ramachandran, diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, trouxe a lume outra hipótese, que surgiu do seu estudo sobre o que acontece no cérebro que faz pessoas amputadas continuarem a sentir o membro amputado, aquilo a que chama de síndrome do membro fantasma. As descobertas que fez levaram-no a pôr a hipótese de que a podofilia, ou podolatria, pode estar ligada ao facto de os pés e os genitais ocuparem áreas adjacentes do cortéx cerebral e poderem “entrar em diálogo”.

Talvez não seja assim tão importante procurar uma resposta. Até porque, de acordo com Mark D. Griffiths, especialista em comportamentos aditivos e professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, a maioria dos que encontram nos pés um motivo acrescido de excitação e prazer sexual vive bem com o seu fetiche, não procura tratamento e consegue integrá-lo de forma saudável e consensual na sua vida sexual.