Sofia Aboim: “Hoje, a relação para a vida toda não é a de casal, mas a de pais e filhos”

Sofia Aboim é socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e tem-se dedicado ao estudo da evolução da família e às questões de género.

Os portugueses são os que mais se divorciam na Europa, não por darem pouca importância às relações conjugais, mas, pelo contrário, por estas representarem uma das dimensões da vida que mais contribuem para a sua felicidade. Sofia Aboim, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explica como o divórcio tem moldado as relações afetivas.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Jorge Simão

Portugal tem a maior taxa de divórcios da Europa. O que é que isso diz sobre nós?
O divórcio é um indicador já pouco exato para medir a dinâmica das relações significativas de conjugalidade, que já não são só de casamento, que as pessoas vão tendo ao longo da vida. Cerca de metade dos bebés nascem de relações entre pessoas que vivem em união de facto. Há uma maior informalidade nas novas conjugalidades (e separações) que não estão nas estatísticas.

A sociedade portuguesa tem mudado bastante nesse sentido, de haver formatos do que é ser um casal, do que é ter filhos, do que é ser uma família, que já não estão de acordo com aquela ideia de namorar, casar, ter filhos e viver juntos para sempre, em que o divórcio era uma rutura não esperada, dramática na vida das pessoas.

Não quer dizer que não possa ser vivido com algum dramatismo emocional, mas está de facto mais naturalizado e há aqui dinâmicas que escapam a esta visão estatística. Agora, pensar o significado do divórcio para o amor e para a importância que as pessoas dão às relações e à conjugalidade…

O casamento ou a relação conjugal tem de servir os interesses dos indivíduos e a sua satisfação afetiva e não o oposto.

O divórcio e o seu aumento acabam por estar relacionados com a valorização do amor na vida a dois. Isto é de certa forma paradoxal, não é?
Deve-se a vários fatores. Prende-se com a dessacralização do casamento, que deixa de ser um sacramento para ser um contrato. Ora, os contratos podem ser rescindidos, se as condições para continuar não forem cumpridas. Neste momento, basta que uma das partes não esteja satisfeita com a relação para que o divórcio aconteça. Não tem de haver um motivo exterior, como a infidelidade ou a violência, que represente uma quebra dos pressupostos contratuais, basta que a relação não satisfaça afetivamente.

Isto é dar às pessoas, mulheres e homens, direitos que são também afetivos, direito à satisfação emocional e ao bem-estar e esta é uma grande mudança. A família deixa de ser uma célula absoluta a que os indivíduos têm de estar subordinados e passam a ser estes o mais importante. O casamento ou a relação conjugal tem de servir os interesses dos indivíduos e a sua satisfação afetiva e não o oposto.

A conjugalidade, os filhos, a família e os afetos são muitíssimo importantes e continuam a aparecer à frente de outras dimensões da vida, como a realização profissional, por exemplo.

E como é que isso tem moldado a conjugalidade e as relações entre as pessoas?
Como todos os estudos têm demonstrado, as pessoas continuam a dar muita importância, como fonte central da sua felicidade pessoal, às relações afetivas e à relação com o outro, e nesse sentido à conjugalidade, seja esta casamento ou união de facto.

A conjugalidade, os filhos, a família e os afetos são muitíssimo importantes e continuam a aparecer à frente de outras dimensões da vida, como a realização profissional, por exemplo. Isso não se perdeu, antes pelo contrário.

Mas, uma vez retirado o cimento institucional, que sancionava as pessoas – mesmo que se divorciassem tinham um preço a pagar, o que já não acontece hoje, o estigma já não existe -, a relação torna-se uma empreitada muito mais a dois e muito mais exigente, porque tem de se negociar essa satisfação pessoal e os prós e os contras da relação quando ela não corre bem.

Não diria que as pessoas se divorciam ao primeiro problema, variará, a maioria dos estudos tem demonstrado que não o fazem de ânimo leve, mas a manutenção da relação tornou-se mais privatizada e dependente da vontade de duas pessoas.

Existe um lado prático importante nas relações conjugais que não se pode tirar da equação – as contas, os filhos, as responsabilidades -, mas as expectativas são sobretudo afetivas e negociá-las a dois é o mais importante.

É só a satisfação pessoal e os afetos que pesam? As questões económicas ou a existência de filhos já não são ponderadas quando se põe a hipótese de uma separação?
Não podemos dizer que fatores de sobrevivência material não sejam importantes, porque, como sabemos, então num país como Portugal, os baixos salários também levam a que as pessoas não consigam ter a autonomia financeira para manter sozinhas uma habitação e o sustento dos filhos com tanta facilidade como isso.

Existe um lado prático importante nas relações conjugais e de casamento que não se pode tirar da equação – as contas para pagar, os filhos em conjunto, as responsabilidades assumidas -, mas as expectativas são sobretudo afetivas e negociá-las a dois é o mais importante.

Acho que um indicador disto é que aumentou imenso o número de casais que recorre à terapia conjugal. Há uma passagem da esfera social e institucional, daquele cimento sacramental do casamento, para a psicologia. O casamento é um investimento afetivo e, como todos os investimentos, não será de ânimo leve que a maioria o quebra.

O casamento tornou-se mais frágil, mas a maioria das pessoas reincidem, voltam a casar ou a viver com alguém ou a ter uma relação amorosa significativa.

Não concorda então com o psiquiatra Júlio Machado Vaz que disse numa entrevista que hoje se desiste depressa de mais das relações?
Percebo o que o Dr. Júlio Machado Vaz quer dizer. Muitas vezes as expectativas afetivas de se viver bem e de se estar feliz com o outro são tão grandes e as dificuldades das relações são tão evidentes que essa ideia de que se desiste depressa de mais pode ser verdade, mas qual é o limiar? Teria de se perguntar às pessoas.

O que é desistir depressa de mais? Qualquer insatisfação faz as pessoas desistir? É preciso perceber o que é desistir depressa de mais ou lentamente de mais também. Porque podemos perguntar-nos porque é que as pessoas ficam décadas em relações tóxicas ou mesmo abusivas e violentas.

Esse depressa de mais também pode indicar uma mudança de normas que é preciso perceber. O casamento tornou-se mais frágil, mas a maioria das pessoas reincidem, voltam a casar ou a viver com alguém ou a ter uma relação amorosa significativa e procuram-no. As pessoas estão à procura dessa realização.

O que mudou então?
Temos de nos perguntar se as normas mudaram, se as pessoas têm outras expectativas e se têm, se calhar há que perceber que o casamento já não é o que era, as relações podem estar a tornar-se mais frágeis dadas as expectativas que têm em cima delas.

Também não quer dizer que as pessoas sejam menos felizes, teríamos de saber realmente o que é a felicidade, mas essa é uma questão muito complicada para um sociólogo. O casamento e a família são o que as pessoas fazem deles e temos de nos preocupar mais, em futuras pesquisas, em perceber isso, perguntando-lhes. Ao longo da história muitas coisas mudaram e se calhar temos na cabeça modelos que já não se aplicam.

Portugal é uma sociedade em que os filhos continuam a ter uma importância extraordinária para as pessoas, são uma grande âncora do seu bem-estar e felicidade.

Os filhos hoje já não têm tanto peso como teriam há uns anos na decisão de manter um casamento, mas, por outro lado, nunca se falou tanto do que se segue ao divórcio em relação aos filhos. Os papéis do homem e da mulher na parentalidade e a forma como os ex-cônjuges convivem no pós-divórcio estão a mudar também?
Todas as discussões sobre o pós-divórcio e os filhos são um produto da evolução no sentido de uma maior igualdade entre as pessoas e da tentativa de encontrar maneiras de dar a homens e mulheres papéis mais igualitários nas relações e negociar um pós-divórcio que já não obedeça ao padrão antigo da mãe que fica e do pai que está praticamente ausente.

Há uma transformação na própria maneira como os homens encaram a parentalidade e o seu papel e isso faz parte de uma divisão mais equitativa e paritária desses papéis, em função até do interesse da criança, do direito de pai e mãe partilharem a parentalidade de uma maneira equilibrada e justa e emocionalmente satisfatória para todas as partes, incluindo a criança.

Isso decorre de um movimento de maior igualdade, de que muitos homens, felizmente, fazem parte. É uma mudança de paradigma e é positiva. E mostra uma outra coisa: uma tendência muitíssimo maior para separar a relação do casal da parentalidade. A parentalidade é que é neste momento a relação inalienável, para a vida. O estar casado ou não com aquela pessoa não tem nada que ver com o continuar a estar na parentalidade a 100%.

O casamento é uma coisa, as relações parentais são outra. E, curiosamente, estas é que são perenes, a força está hoje muito mais do lado das relações entre pais e filhos. Esse cimento, que se quer afetivo e participativo, existe em função dos filhos. Sobretudo em Portugal, que é uma sociedade em que os filhos continuam a ter uma importância extraordinária para as pessoas, são uma grande âncora do seu bem-estar e felicidade. Ter filhos, nem que seja um, é muito importante. Isso não se alterou.

Falou na questão da igualdade e da paridade entre homens e mulheres. Podemos entender o divórcio, em certa medida, como uma conquista das mulheres?
Sim, não deixa de estar ligado à conquista histórica dos direitos das mulheres, porque para que o divórcio seja possível e viável é preciso que as mulheres tenham direitos iguais, tenham possibilidade de estar no mercado de trabalho, tenham autonomia financeira e sejam independentes. Nesse sentido, o movimento feminista e a emancipação das mulheres foram determinantes nesta matéria.

No entanto, ainda no ano passado morreram mais de 30 mulheres em contexto de violência doméstica, a maioria delas porque decidiram sair de uma relação abusiva. O que é que isto significa em termos de sociedade?
A paridade e uma economia de afetos são as expectativas na maioria das relações conjugais. Aliás, nós comentámos muito que o divórcio era mais um reflexo dessa procura de realização afetiva do que de uma menor importância das relações conjugais, que não acho nada que tenham menor importância, acho que têm mais até, no sentido de terem de corresponder a um ideal afetivo.

Agora, se isso representa um eliminar da violência, daquilo que entendemos como a desigualdade entre homens e mulheres e da opressão do masculino sobre o feminino, uma violência que é perpetrada muito mais por homens do que por mulheres, que continuam a ser as principais vítimas, eu diria que não.

Há resistência à mudança. Veja-se os movimentos pelos direitos dos homens e a emergência de partidos conservadores e de extrema-direita, que defendem um retorno à família tradicional e a um modelo de supremacia masculina.

Porquê?
Apesar das leis, das medidas e das políticas, ainda há muito por conquistar nesse campo, sobretudo no que respeita à socialização dos homens, desde a infância, em padrões de uma masculinidade a que chamamos tóxica, porque reitera muito o poder dos homens sobre as mulheres e determina a incapacidade de alguns, até emocionalmente, lidarem com a igualdade na relação, com afetos que não implicam esse controlo sobre o outro, que são de possessividade, de algo que está muito longe de ser uma relação paritária. E isso gera uma violência que é estrutural.

Não estou a dizer que não haja casos de indivíduos que possam ser mais violentos por razões psicológicas e que escapam completamente a estas grandes estruturas culturais e históricas, mas temos de perceber que isto é um padrão e, se é um padrão, havemos de nos perguntar porque são mais violentos. Eu acho que é porque são socializados para isso.

E acho que há também elementos que mostram uma grande resistência à mudança. Veja-se todos os movimentos pelos direitos dos homens, até às vezes um pouco excessivos, que querem recuperar um modelo de supremacia masculina, assim como a emergência de partidos conservadores e de extrema-direita, que defendem um retorno à família tradicional. E desigual.