«Solidariedade masculina? Ele foi apanhado pela mulher e tu falas de solidariedade masculina?»

– Uma colega minha viu-te hoje. Ao pé do teu ginásio.
– Ah sim?
– Estavas a falar com um tipo. Alto. Ela diz que ele era muito alto.
– Ah, devia ser o Pedro.
– Estiveste com o Pedro? Não o vias há imenso tempo, não é?
– Sim, mais ou menos. Está bem, ele. Está com bom aspeto.
– Ah, boa. Fez-lhe bem, o divórcio, então.
– Agora está bem, mas passou um mau bocado. Foi difícil para ele.
– Mas foi ele que quis. A Ana não queria separar-se.
– Aquilo já estava mal. Andavam a adiar, a arrastar…
– A arrastar estava ele. A asa para cima de uma colega.
– Essa história não é bem o que se conta.
– O que é que se conta? Há dias perguntei-te e disseste que não sabias nada.
– É uma forma de dizer. Acho que a Ana está meio chateada e pensa que ele andou com a colega antes de se separarem.
– E não andou?
– Que eu saiba não.
– Como é que sabes? Contou-te ele hoje?
– Ele já me tinha dito, há tempos.
– Então tens falado com ele.
– Mais ou menos. Falamos de vez em quando. Trocamos umas mensagens de Facebook e uns SMS. Eu meto-me com ele quando o Porto perde. Essas cenas… Mas porquê? O que é que se passa?
– Nada, nada. São as vossas cenas, não é?
– São, porque nos conhecemos há muito tempo. Qual é o problema?
– O problema é que, cada vez que eu falo no Pedro, tu vens com evasivas, e não sabes, e não ouviste dizer, e não se falam há uns tempos, não se veem há uns meses… Tanga. Estás a dar-me tanga e eu a ver.
– Não estou a dar-te tanga nenhuma. Eu não tenho visto mesmo o Pedro. E trocar mensagens quando o Porto perde não é falar.
– Não, isso não é falar. E almoçar com ele, é falar?
– Almoçar? Mas eu hoje não almocei com o Pedro.
– Se almoçaste hoje, não sei. Mas na semana passada almoçaste. No dia em que ele foi falar com a Ana por causa dos miúdos.
– Isso…? Comemos umas sandes ao balcão, não foi bem almoçar.
– Estás a gozar comigo?
– Ele queria falar, precisava de uma opinião jurídica.
– Claro. E tu, como és advogado, foste logo a correr. Para isso não podiam ser SMS como quando o Porto perde.
– Mas desde quando é que não posso almoçar com os meus amigos?
– Tu almoças com quem te apetece, quero lá saber. Não gosto é que me enroles. Tenho falado com a Ana, sabes bem. E sabes que ela está mal, isto está a custar-lhe horrores. E tu tens estado com o Pedro e não me dizes nada e ainda me fazes de parva.
– Porque já sabia que ias fazer-me perguntas sobre ele e a namorada e depois vais a correr contar à Ana.
– Namorada? Ele anda com aquela gaja? Namoram?
– Não é namorada. Amiga. Não namoram nada.
– Eles só estão separado há dois meses!
– Eu não sei se é namorada.
– Estavas a dizer que não, que não é. Alguma coisa deves saber.
– Estás a ver porque é que eu não te conto. Ficas nesse estado.
– O teu amigo enrolou-se com uma colega. A Ana sabe. Eu sei. Tu sabes. Foi apanhado pela mulher. A minha melhor amiga. E sai de casa porque diz que ficou ofendido por a mulher lhe ter mexido nos bolsos. Dois meses depois namora com a outra. Como é que queres que eu fique? Ainda por cima o meu marido esconde-me coisas.
– Eu não estava a esconder, estava só a omitir.
– Sabes que foi isso que ele disse quando foi apanhado? Vocês são todos iguais. Não quero falar mais disto. Vou ligar à Ana.

[Publicado originalmente na edição de 28 de fevereiro de 2016]