Somos todos humanos

A crónica de hoje não é fofinha nem cheia de arco-íris. Não está cheia de mensagens de esperança e optimismo, dicas para nos levantarmos cheios de energia positiva e conseguirmos cumprir calendários exigentes e totalmente irrealistas. Não, na crónica de hoje falo-vos das fragilidades e das vulnerabilidades, dos momentos de choro e de angústia, das insónias e das preocupações que nos assolam a todos…. e quando digo todos, são mesmo todos. Porque somos todos humanos.

Quem está na chamada linha da frente (e aqui incluo muito mais do que os profissionais de saúde) manifesta já claros sinais e sintomas de desgaste e exaustão, caminhando a passos largos para uma situação de burnout. Agora é hora de reagir, o burnout e todos os seus efeitos colaterais manifestar-se-ão, provavelmente, mais tarde.

Todos nós procuramos, cada um a sua maneira, encontrar a melhor forma de viver e sobreviver a um inimigo que ninguém vê e que é, ao mesmo tempo, tão visível. Somos inundados de informação que é preciso filtrar, muita dela mais alarmista do que outra coisa qualquer. Ouvimos sugestões daqui e dali que é preciso integrar e processar, de modo a que nos faça algum sentido. Toda a sociedade parece unida com um propósito comum e a existência desta união é, em si mesma, um sinal de esperança.

Temos os profissionais da área da saúde mental totalmente mobilizados, liderados por uma Ordem que, justiça seja feita, tem-se revelado de uma competência e sentido de missão imensos. Penso que, na história da Psicologia em Portugal, nunca antes estivemos tão unidos e a uma só voz como agora. Há, no entanto, algo que importa salientar. Os chamados “psis”, psicólogos e psiquiatras, bem como os profissionais da área de intervenção social, também são humanos. Também acordam a meio da noite e choram, perdem o apetite e a vontade de sorrir, de fazer exercício físico ou de relaxar. Também têm dificuldades em fazer os miúdos cumprirem os calendários irreais que são sugeridos, também gritam e se afundam no sofá a não fazer nada. Como forma de não pensar.

Ser profissional da área da saúde mental não significa que tenhamos sido de alguma forma imunizados por uma vacina mágica que nos protege de tudo isto. Não. Não somos imunes. E temos o desafio acrescido de contarem connosco para ajudar todos os outros, o que nos coloca em cima dos ombros uma pressão gigantesca.

Estamos todos a dar o melhor de nós, encontrando forças onde nem sequer sabíamos que existiam. Perdoem-nos se também sentirmos medo e se nem sempre as lágrimas conseguirem ser contidas. É que, afinal de contas, somos todos humanos.