Ana é cantora e tem quatro filhos. Vão percorrer o país de autocaravana numa tournée

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Para a cantora Ana Stilwell a vida é uma viagem (Life Trip, nome do novo álbum). Não apenas metafórica mas com o pé na estrada. Mãe de quatro, conjuga esse papel – o mais importante – com a carreira profissional e diz que esta dupla a torna melhor pessoa. Tanto, que vão todos percorrer o país de autocaravana, numa tournée (começa a 25 de janeiro) que se tornou uma descoberta do país em família.

Texto de Ana Patrícia Cardoso

Podemos começar pelo título do álbum, Life Trip. Que viagem é esta que se propõe fazer?
Tem sido uma viagem inacreditável na criação, conceção e promoção do disco. Uma verdadeira life trip. E como decidi fazer tudo de forma mais independente tive que perguntar a mim mesma «O que é que eu quero? O que quero comunicar através da música? Quem eu sou na verdade?». São todas perguntas difíceis e que fui respondendo à medida que o processo se desenrolava. Por outro lado, quando partirmos de autocaravana essa aprendizagem vai continuar. Gosto de pensar que esta life trip não acaba.

No fundo, é uma reflexão sobre si mesma.
Acho que sim. Todo o processo foi. O resultado – o disco – é a soma de tudo. O que aprendi é que sou melhor mãe e cantora quando junto as duas coisas e aceito o caos que daí vem.

Tem uma família, uma vida estável. O que a levou a perseguir uma carreira profissional na música?
O meu pai toca piano muitíssimo bem. Todas as noites, antes de dormir, ele tocava e eu cantava. Era o nosso ritual e foi aí que tudo começou. Eu tinha alguma dificuldade em acreditar que poderia mesmo seguir este caminho, portanto, andei por aí a inventar (trabalhou como educadora de infância e numa agência de comunicação). Depois, quando assumi que queria ser cantora e com o primeiro álbum, Take My Coat, tive a certeza. Claro que à medida que uma pessoa avança vai ganhando outra confiança. Curiosamente, neste álbum, uma das músicas é tocada pelo meu pai.

Com 32 anos, é mãe de quatro filhos (Madalena e Carmo, oito anos, Marta, três, Eduardo, um). Não é uma situação comum, hoje em dia, para uma mulher dessa idade. Foi planeado?
Bom, da primeira vez fiz batota porque tive gémeas. Mas tenho vivido de forma bastante orgânica. Sempre me vi como mãe, isso é certo. Enfim, acho que não programei tudo.

E nota-se na sua música essa vivência enquanto mãe.
Neste processo, percebi que eu enquanto música – e acho que todos os músicos o fazem – escrevo sobre aquilo que vivo. Nos últimos anos a minha vida tem sido cheia dos meus filhos e este papel de mãe tem ocupado um espaço enorme. Era inevitável que os dois se cruzassem, mas depois houve ansiedade da minha parte. Queria mesmo perseguir o sonho de ser cantora, construir esse projeto e, ao mesmo tempo, lidar com o dia-a-dia deles. A forma como eu quero estar com eles, enquanto mãe, também ocupa muito tempo. Depois, ao longo do tempo, fui sentindo alguma paz. Uma paz que na rotina não se sente. Continua a ser confuso e as coisas misturam-se e, às vezes, não se fazem ou fazem-se com ajuda. Não sou uma supermulher por conciliar isto tudo. Às vezes, corre tudo mal.

Por tudo isso, sente-se uma cantora mais maternal?
Acho que sou um «tudo» maternal. Cantora, sim. Por exemplo, estava a ouvir o álbum e pensava nisso. Toda esta aprendizagem tem um lado muito maternal. Mas, na verdade, eu não sou só mãe, sou uma mulher com os seus sonhos e isso também está presente no disco. Não são só músicas de mãe. Mas o single – Fiz-te a ti – por exemplo, é.

E como eles reagem às músicas da mãe?
Eles vivem tanto as músicas da mãe no seu quotidiano que não lhes faz grande diferença ter um álbum. As gémeas já percebem mais e ficam muito contentes que a tournée envolva uma autocaravana e que eles podem ir comigo nessa aventura.

Ao ouvir o seu álbum, a sensação que se tem é que a Ana quer passar uma mensagem positiva. As músicas lembram o verão, o sol, a família. É uma afirmação correta?
Sou uma pessoa que gosta de viver, mesmo nos momentos mais difíceis, com algum humor e com positivismo. Como o álbum é genuíno é possível que passe essa mensagem.

A ‘trip’ do título não é só metafórica. Pode explicar como vai ser a viagem em família?
No verão passado alugámos uma caravana para as férias em família. Uma noite, quando estavam todos a dormir, percebi que tinha ali dentro tudo o que eu queria – a música e a minha família. Gostei muito dessa sensação. Quando chegou o momento de lançar o álbum pensei que fazia todo o sentido fazer esta viagem. Tem vários objetivos. Por um lado, partilhar a minha música e dar concertos em vários sítios diferentes, não só Lisboa. Por outro lado, mostrar o país aos meus filhos. É a simbologia perfeita de tudo o que tem sido este caminho. Vamos partir de autocaravana aos fins de semana – elas têm a escola. Neste, vamos para Coimbra e para o Porto. No seguinte, para o Algarve e no outro, Beja e Évora. A nove de fevereiro há o concerto em Lisboa.

Há espaço para o improviso, para gostar de um lugar, parar e tocar?
Sem dúvida. A ideia é essa. Com miúdos temos sempre que ter alguma organização mas tudo o que se passar no entretanto está aberto.