As supermães que a natureza nos deu

Dia da Mãe

Mães-tigre. Mães-galinha. Mães lobas. Independentemente da necessidade de se rotular as progenitoras – e de haver uns rótulos que assentam melhor do que outros –, assim é a mãe natureza a desejar um feliz dia a todas as mães.

Texto de Ana Pago

A natureza das mães é complexa: cometemos erros, choramos, rimos, duvidamos e, no entanto, todas só queremos o melhor para nossos filhos. Se esta nossa faceta volátil não os abala um pouco? É natural que sim, também a nós. Mas por isso a natureza nos dotou de braços que os apertam de encontro ao peito horas a fio. E de beijinhos mágicos que curam quaisquer feridas. E de um amor maior que o universo e arredores. A própria natureza é mãe, o que significa que alguma coisa bem feita havemos de estar a fazer.

MÃES-CORUJA
É capaz de ser a expressão mais conhecida a relacionar bichos com mães humanas e a imagem que nos vem imediatamente à cabeça é a de uma mulher protetora, terna, com um colo tão aconchegante que nem aos 30 anos os filhos vão querer de lá sair. Lógico que nenhuma mãe quer que as suas crias sofram, pelo que todas serão superprotetoras em alguns momentos. O problema é quando lhes cortam as asas, interferindo com o normal desenvolvimento das crianças e o modo como escolhem viver as suas vidas já depois de terem largado o ninho.

MÃES-GALINHA
Tal como as mães-coruja, as mães-galinha tendem a superproteger os seus pintainhos humanos e a enaltecer-lhes apenas as qualidades, elogiando-os sem sequer pararem para respirar se por acaso alguém lhes pergunta como vão na escola, ou se estão bem de saúde. E tal como nas mães-coruja a expressão não quer dizer que estas são boas ou más mães: apenas que vivem a maternidade de uma forma mais controladora e stressada, não há como evitar. Elas até sabem que os filhos poderão ter maior dificuldade a enfrentar problemas no futuro, mas pelo menos no presente, pela parte que lhes toca, farão tudo ao seu alcance para que não sofram com nada.

MÃES-TIGRE
Está a ver aquelas mães de olhar implacável e garras de fora, disciplinadoras ao ponto de terem os filhos a ler Platão aos 4 anos e a tocarem virtuosamente violino aos 5? Pois foi quando Amy Chua escreveu O Grito de Guerra da Mãe Tigre (por cá editado pela Lua de Papel em 2012) que as inconfundíveis mães-tigre chinesas se tornaram conhecidas do mundo – inclusive daquelas progenitoras que desconheciam haver toda uma espécie de mães como elas, com nome de felino e tudo. Mães-tigre são exigentes, perfecionistas e proíbem a televisão, os jogos de computador, as dormidas fora de casa e notas inferiores a Excelente. Tudo para bem das crianças, que irão tornar-se profissionais de sucesso (a própria Chua é uma renomada professora de direito na Universidade Yale, EUA) se crescerem habituadas a não cometer falhas.

MÃES-DRAGÃO
Surgem por oposição às mães-tigre chinesas por serem animadas, permissivas com os filhos, a fazer mil coisas em simultâneo que nem sempre concluem, pelo que as crianças lhes seguem as pisadas na bagunça, sempre alegres. Será com elas que as crias-tigre irão provar chocapic ou bolachas de dinossauro ao lanche, se um dia a mãe-tigre autorizar.

MÃES URSAS
Também têm garras poderosas e pelo na venta, mas distinguem-se das mães-tigre pelo amplexo de urso (de ursa) com que abraçam as crianças, já para não falar da ternura e da energia com que cuidam delas nos primeiros anos, em que muita coisa importante fica estabelecida em matéria de desenvolvimento infantil. Apesar de solitárias e de todo o seu universo girar em torno dos filhos, não os sufocam e incentivam-nos a serem autónomos nas pequenas coisas do dia-a-dia, sem grandes fundamentalismos, garantindo que crescem felizes e seguros.

MÃES-CANGURU
Fazem a apologia dos panos, dos slings e de toda a espécie de mochilas que lhes permitam ter sempre os filhos encostados a elas, reproduzindo o mais possível o vínculo que existiu entre ambos durante a gravidez. Nem sequer se importam que as costas lhes fiquem a doer para o resto da vida daí em diante: por elas, a criança só se senta num carrinho quando o tecido der sinais de já não aguentar com o peso do bebé. Assim como assim não é muito diferente de se carregar uma mala pesada, coisa que todas as mulheres fazem. Com a diferença de que nesta transportam o seu maior tesouro.

MÃES LOBAS
Dispostas a lutar até à morte com unhas e dentes – muito literalmente – para defenderem os filhotes do perigo, as lobas são consideradas mães protetoras, que não recuam diante de nada para salvá-los. E isto significa que a maioria das mães humanas se transformam em mães lobas antes mesmo de verem e cheirarem os seus bebés pela primeira vez, capazes que são de levantarem carros com as mãos, atravessarem barreiras de fogo, enfrentarem animais enfurecidos e darem a vida por eles em quaisquer circunstâncias, por amor. Incondicionalmente.

MÃES LEOAS
Têm fama de corajosas e decididas, contudo não se anulam nem deixam de pensar no que é também melhor para elas se por acaso entrar em cena um jovem leão espadaúdo, acabado de destronar o antigo líder/marido. Em alturas assim, as mães leoas permitem muitas vezes que os filhos fiquem em segundo plano face a esta paixão recém-descoberta, embora sem nunca deixarem, como sucede na selva, que o novo namorado mate os filhos do antecessor, que por sinal são também os filhos delas. Se há facto com que temos de lidar é o de que na natureza não existem apenas mães perfeitas, faz parte da vida.

MÃES COELHAS
E são estas as mais desnaturadas da lista de mães, apesar dos contos deliciosos em que a mamã coelha prepara seis ou sete lancheiras para os coelhinhos levarem para a escola na floresta. No mundo animal, as coelhas deixam os bebés sozinhos pouco depois de nascerem e vão muitas vezes certificar-se de que estão bem uma vez por dia, não mais do que isso, de forma a manterem os predadores longe da toca. No mundo humano o título corresponde às mães que primam pela ausência e se envolvem pouco na educação dos filhos, provavelmente devido ao muito que trabalham para lhes dar o melhor.