Susana Almeida: ‘A maternidade esmaga as mães com expetativas absurdas’

Susana Almeida Ser Supermãe É Uma Treta

Ser mãe é o melhor do mundo, mas o que fazer quando a sociedade insiste em que temos de ser também a melhor mãe do mundo? A mais bonita, a mais paciente, a mais perfeita? A isto e muito mais responde a blogger Susana Almeida em Ser Supermãe É Uma Treta. Um livro que isenta as mães de culpa mesmo que percam um bocadinho as estribeiras.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Porque é que se insiste tanto na ideia de que tudo são unicórnios e arco-íris quando um filho nasce?
Para começar, acho que tem muito que ver com a ideia de bênção, do milagre da conceção. Não sou católica, nem pouco mais ou menos, mas existe essa perceção do nascimento como um milagre, tudo tão bonito, só folhos e tons pastel. Lembro-me de que quando engravidei da minha mais velha, há seis anos, fui à procura de informação nos blogues de maternidade e eram todos um desfile de roupas e publicidade, com mães que não perdem a cabeça e estão sempre ao ar livre com os miúdos a fazerem coisas espetaculares. Percebo que seja essa a tónica se estão a vender um produto, mas eu olho para aquilo e penso: “A minha vida não é nada disto, caraças!”

“Parece que as mães têm de saber sempre tudo, desde dar de mamar àquilo que um filho nos quer dizer quando chora.”

Confirma-se: há alturas em que uma mãe se sente simplesmente exausta e com a paciência toda rebentada.
E está tudo bem, não é errado senti-lo. A maternidade é uma loucura que nos esmaga com expetativas absurdas. Daí ter decidido escrever sobre este lado escondido que nos enche de culpa, porque parece que as mães têm de saber sempre tudo, desde dar de mamar instintivamente àquilo que um filho nos quer dizer quando chora. É mentira: umas vezes sabem, outras não. O que não significa que não tenham de levar a toda a hora com essa ideia da mãe cuidadora, perfeita, que nasceu com a missão de cuidar dos filhos. Como se aquele mundo não fosse novo e desconhecido também para ela.

É como se uma mãe fosse menos mãe por assumir que não está a ser capaz de fazer algo?
Totalmente. Lembro-me de não conseguir amamentar bem a minha filha Mariana e foi um pesadelo, por pouco não deu cabo de mim. O mais novo começou logo a comer, já ela passava horas agarrada às minhas mamas e tudo o que as pessoas me perguntavam era como raio não conseguia eu alimentá-la se tinha tanto leite? Em que é que estava a falhar como mulher? Como mãe? Toda a gente tinha opinião sobre isto, incluindo o meu pai ou amigas minhas que nunca na vida tiveram filhos: “Mas será que estás a dar bem? Afinal qual é o teu problema em amamentar?” Custou-me horrores a aceitar que o leite materno é o melhor, de facto, mas às vezes não é o melhor para os dois e então não dá. Felizmente, hoje já mais gente aborda estes temas polémicos.

Embora continuem a dar direito a julgamento público, com dedos acusadores apontados às mães. Que efeitos tem isso numa mulher que se sente julgada, sozinha e culpada a maior parte do tempo?
Pode ser devastador, sobretudo num momento tão delicado como é o pós-parto. A maioria ainda pensa que a mãe está de papo para o ar em casa a cuidar do bebé, quando na verdade esse é um tempo que serve para ela recuperar do cansaço, encontrar-se consigo mesma e tentar descobrir-se num papel novo que a enche de ansiedade e medos, enquanto é atacada por oscilações hormonais loucas que a fazem sentir-se bastante mal. Chegamos a passar semanas com a sensação de que estamos a viver a vida de outra pessoa e somos as piores mães do mundo. Por isso é tão importante tirar de cima da nossa cabeça o peso das expetativas irreais, da culpa, das opiniões e do julgamento dos outros.

Susana Almeida Ser Supermãe É Uma Treta

Especialmente porque o esforço maior ainda recai sobre as mulheres, que nem à noite param…
Alguém pergunta ao pai porque é que não acorda a meio da noite para ir dar o biberão? Ou porque não fica ele em casa com os miúdos se estão doentes? Claro que os homens também ajudam, mas não são pressionados de igual forma a fazerem coisas que a sociedade convencionou pertencerem à mãe. A maternidade é das vivências em que há mais fundamentalismos, mais guerras para mostrar que eu sou melhor do que tu, sei mais, educo melhor. Devíamos era pensar que cada uma de nós é a melhor mãe do mundo para os seus filhos, a mãe de que eles precisam, em vez de apontarmos o dedo às outras mulheres e colocar-lhes um peso em cima que nenhuma merece carregar.

A questão é que a mulher está sempre na mira, até mesmo quando não quer ser mãe. É presa por ter cão e presa por não ter?
Sim, porque mais uma vez gira tudo em torno da culpa, das expetativas de que nascemos para procriar, e aqui não são apenas as mães que são demasiado duras com elas próprias: os outros também são demasiado duros com as mães, inclusive com as que decidem que não nasceram para esse papel. Tenho uma amiga que adora crianças, mas depois também gosta de entregá-las aos pais e ir à vida dela – e eu acho isso perfeito. Mas sim, é massacrada como se tivesse um problema qualquer. Tal como são massacradas as mulheres que nunca chegam a poder ser mães ou não querem sê-lo no imediato, como se estivessem a prazo.

“Sou uma mãe diferente para cada um dos meus filhos.”

Bolsado, vómito e afins obrigam a mudanças drásticas na vida de uma mulher?
Suponho que dependa de como a mulher se relaciona com essas coisas. Na minha foi uma mudança total. Sempre morri de nojo de lhes aspirar o nariz com um tubo e, no entanto, já os tive a vomitarem-me para cima e até pior do que isso nas minhas pernas. Aliás, há uma boa parte da maternidade que gira em torno dos cocós dos nossos filhos – será que fizeram na escola? Não fizeram? Era duro ou mole? – porque queremos saber se aquilo está tudo a funcionar como deve ser. Os miúdos precisam de nós e uma mãe transfigura-se.

Em que medida ser a mais velha de três irmãos a ajudou (ou nada que se pareça) a antecipar o que aí vinha como mãe?
Tenho uma diferença de 19 anos do meu irmão e mais sete do que a minha irmã, costumo dizer que são os meus filhos-irmãos. A nossa mãe trabalhava muito e era eu quem mudava fraldas e dava banho aos dois, pelo que quando os meus filhos nasceram estava bastante tranquila nesses aspetos mais práticos da maternidade. Os meus irmãos também já faziam birras e eu sacava do meu feitio lixado e da minha autoridade para metê-los na ordem, o que me deu bastante experiência a contrariar respostas tortas. Claro que depois os meus filhos vieram com o seu próprio feitio, completamente diferentes entre si, o que me obriga a ser uma mãe diferente para cada um deles.

“Os meus filhos são miúdos felicíssimos e eu não deixo de barafustar com eles se me salta a tampa.”

Alguma vez se imaginou a dizer aquelas coisas antipedagógicas que ouvíamos das nossas mães? Do género “Olha que se cais ainda levas por cima”, ou “Espera lá que eu já te dou um motivo para chorares a sério”?
Não pensava porque acreditava que os meus filhos nunca iriam fazer birras, então não teria de gritar com eles. E hoje em dia berro que me farto e parece-me sempre que estou a ouvir a voz dela na minha cabeça, a repetir exatamente as mesmas frases que dizia: “Não te aviso mais vez nenhuma!”, ou “Não é já vou, é já!”, ou “Estás aqui estás a levar uma palmada no rabo!” Mas sabe uma coisa? A minha mãe é a minha melhor amiga e sempre mostrou que me ama. E esse, quanto a mim, é o segredo: fazer os meus filhos saberem que os amo e tenho um imenso orgulho neles e dou a minha vida por eles. Acho que as crianças não precisam de mais nada além do nosso amor e dessa segurança. Não têm de ser tratadas como pequenos adultos que não são, nem os pais de ceder a negociações com terroristazinhos. Os meus filhos são miúdos felicíssimos e eu não deixo de barafustar com eles se me salta a tampa.

Apesar de tudo ser mãe é mesmo o melhor do mundo?
Para mim, é. Não concebo a minha existência sem eles, nem tenho saudades da vida que levava antes de tê-los. Já fui essa pessoa e aproveitei bem as saídas, as férias tranquilas, as noites bem dormidas, contudo desde que nasceram que sinto que só faço sentido com as crianças, mesmo quando temos de nos lembrar de existir para além delas porque isso vai fazer de nós melhores pais. Não os melhores pais do mundo, atenção! Não sei o que é isso de ser supermãe. Mas sou de certeza a mulher que mais ama os meus filhos, com o amor mais incondicional que tenho para lhes dar.

Susana Almeida Ser Supermãe É Uma Treta

A AUTORA
Susana Almeida é blogger, tem 40 anos, um enteado que é filho do coração e duas crianças de 6 e 4 anos, Mariana e Tiago, que são todo o seu mundo, embora não sejam o melhor do mundo o tempo todo. Em abril de 2017, cansada das birras da mais velha, da privação de sono e da visão cor-de-rosa da maternidade, criou o blogue Ser Super Mãe É uma Treta, com mais de 30 mil seguidores no Facebook e de 8 mil no Instagram. Acaba de lançar agora o livro com o mesmo nome para sublinhar que não existem mães perfeitas e educar os filhos é tramado, razão por que continuará a esforçar-se e a dizer asneiras sempre que falhar.

SER SUPERMÃE É UMA TRETA
SUSANA ALMEIDA
Ed. Influência
256 páginas
16,99 euros