Telefonemas entre pais e filhos

Quando os pais estão separados e, por esse motivo, não convivem diariamente com os filhos, é desejável que existam contactos telefónicos. Como estes acabam, tantas vezes, por ser fonte de (ainda mais) conflito entre os pais, dão-se algumas sugestões que podem facilitar o processo e proteger as crianças.

Em primeiro lugar, é importante salientar que as crianças precisam de contactos presenciais frequentes e extensos com ambos os pais, pelo que os telefonemas devem ser entendidos como uma forma complementar de comunicação, e não como a principal forma de contacto.

Sabemos ainda que a maioria das crianças, com pais separados ou não, não gosta de falar ao telefone. É um facto que temos de aceitar com tranquilidade. Quando são mais pequeninas, ignoram o telefone, distraídas que estão com os desenhos animados e as brincadeiras. Respondem apenas por monossílabos ou abanam a cabeça, o que não é observável numa chamada telefónica. Quando crescem, preferem escrever mensagens e partilhar vídeos nas redes sociais, sendo as chamadas de voz algo quase pré-histórico que apenas os pais (autênticos dinossauros) valorizam.

Como pode a criança dizer que gosta do outro progenitor e que sente saudades ou, ainda, contar as vivencias do seu dia-a-dia se ao seu lado tem alguém a transmitir-lhe que não gosta dessas partilhas?

Em situações de conflito parental é também muito frequente as crianças não quererem falar com o outro progenitor. Não necessariamente porque mantenham com esse progenitor uma relação negativa, mas porque precisam proteger-se desse conflito. Se quando falam com um dos pais o outro está presente, a ouvir a conversa e a tecer comentários (depreciativos), naturalmente surgem conflitos de lealdade. Como pode a criança dizer que gosta do outro progenitor e que sente saudades ou, ainda, contar as vivencias do seu dia-a-dia se ao seu lado tem alguém a transmitir-lhe que não gosta dessas partilhas?

Neste contexto, de que forma devem ser pensados os telefonemas entre pais e filhos?

#1 A frequência dos telefonemas deve ser diária ou quase diária. Não esquecer que a noção de tempo das crianças (pelo menos até à idade escolar) é muito diferente da dos adultos, com menor capacidade em compreender períodos de tempo mais extensos.

#2 Sempre que possível, devem realizar-se vídeo chamadas, permitindo que a criança seja estimulada, não apenas de forma auditiva, mas também visual. A riqueza da interacção quando estamos a ver a face do outro é imensamente maior, permitindo-nos ver o sorriso, o olhar, os gestos… com as crianças mais novas esta forma de contacto tem ainda uma vantagem adicional, na medida em que lhes permite interagir com o progenitor enquanto brincam, comem ou desenham.

#4 O progenitor que está com a criança deve distanciar-se e dar-lhe espaço e privacidade, para que possa falar de forma descontraída e espontânea.

#5 A vídeo chamada não deve ter uma duração pré-definida. As crianças não são robots e, como tal, deve permitir-se que a conversa flua sem qualquer tipo de constrangimento. Será que nós, adultos, gostávamos que alguém nos dissesse que tínhamos apenas x minutos para falar com alguém de quem gostamos muito?

#6 Por fim, talvez a regra mais importante. É habitual ouvirmos os pais queixarem-se que, muitas vezes, ligam aos filhos e as chamadas não são atendidas. Do outro lado surgem as justificações, plausíveis, de que coincidiu com a hora do banho, do jantar ou de qualquer outra actividade. E quando os telefonemas coincidem com actividades, mesmo que atendidos, a disponibilidade da criança poderá ser menor. Assim, sugere-se que seja o progenitor que está com a criança a efectuar a chamada para o outro progenitor. Isto tem uma dupla vantagem: por um lado, permite perceber qual o horário mais adequado para que o contacto seja realizado. Um horário tranquilo em que a criança não esteja focada em outra coisa. Por outro lado, transmite-se à criança a mensagem, tão importante, que o progenitor com quem está deseja que ela fale com o outro.

A separação dos pais é uma mudança na vida das crianças que exige múltiplas adaptações, sendo que o seu ajustamento depende, acima de tudo, da capacidade de ajustamento dos pais. E é nestes momentos tão importantes como os contactos telefónicos que os pais podem fazer a diferença. Entre ter crianças ansiosas e divididas, ou crianças tranquilas e descontraídas, com a oportunidade de falarem livremente com quem mais gostam.