Tenho um filho adolescente. Posso fugir de casa??

Quando os filhos são pequenos e nos queixamos das noites sem dormir, das fraldas, da amamentação e das doenças constantes, há sempre a voz de alguém que, do alto da sua sabedoria, nos avisa: “aproveita que este é o melhor tempo… quando crescer vai ser bem pior…” E nós, ingénuos, achamos que essa pessoa está a delirar. Mas não está. É quando a adolescência chega (e parece que a cada ano que passa chega mais cedo) que temos a terrível confirmação. Sim, os melhores tempos são mesmo aqueles em que eles gritam de dia e de noite, sujam fraldas a um ritmo alucinante e nos fazem andar como zombies no dia-a-dia.

Na adolescência, o egocentrismo está ao rubro e a instabilidade emocional é uma constante. Impulsivos e mais centrados no aqui e agora do que no futuro revelam, muitas vezes, dificuldade em adiar o prazer e em controlar os seus comportamentos. Ao mesmo tempo, entediam-se com facilidade e necessitam de estimulação, o que pode, por vezes, associar-se a comportamentos mais problemáticos.

Em paralelo, os valores e a autoridade parental são questionados sistematicamente, com atitudes de desafio e oposição. Os amigos são o seu mundo e sentirem-se aceites e integrados a sua principal motivação.

Mais do que nunca, exige que os pais consigam regular as suas próprias emoções. Porque, a verdade seja dita, os filhos adolescentes conseguem tirar-nos do sério!

Face a tudo isto… temos pais em estado de sítio, questionando-se em que medida possuem os recursos necessários para lidar com tantas exigências. E temos de admitir que não é fácil. O sistema familiar abre-se mais do que nunca ao exterior, o que exige por parte da família capacidade em flexibilizar e renegociar papeis, fronteiras e limites. Exige ainda capacidade de comunicação e em negociar as diferenças. Mais do que nunca, exige que os pais consigam regular as suas próprias emoções. Porque, a verdade seja dita, os filhos adolescentes conseguem tirar-nos do sério!

Os pais pedem receitas para saber lidar com esta fase da vida familiar. E a receita é mesmo essa. Pensar que a adolescência é uma fase, transitória e mutável, e não a revelação de traços de personalidade negativos e estáveis que irão persistir ao longo do tempo. Esta forma de pensar é o chamado enviesamento funcional, que é como quem diz, perceber as características positivas dos nossos filhos como estáveis e as negativas como passageiras. Sabemos que nem sempre é assim mas, em bom rigor, é este enviesamento que permite aos pais manterem-se focados e empenhados no seu papel parental. Sem desistir nem fugir de casa.

Esta receita termina com mimos e limites. Mesmo que eles digam que não querem beijos e abraços, ou até que afirmem sentir vergonha de tais manifestações de afecto por parte dos pais, não deixem de as fazer. E limites, para que se sintam orientados, supervisionados e acompanhados.

Respiremos fundo e prossigamos a nossa missão. É uma fase, vai passar… não sabemos é quando.