Teremos a coragem de dizer o que nunca dissemos?

Estamos perante uma situação de crise que activa em nós sentimentos muito diversos e por vezes ambivalentes. Sentimos alegria por umas coisas, tristeza e angústia por outras… medo… zanga…. sei lá, penso que às vezes conseguimos sentir todas as emoções possíveis num dia só. E é muitas vezes nas situações mais limite que olhamos para a nossa vida e, em segundos, percebemos que há algo que ficou por dizer ou fazer.

Olhamos para trás, rebobinamos a cassete (os mais novos não percebem o que isto significa e, por isso, sugiro que perguntem aos mais velhos) e percebemos, tantas vezes com tristeza e amargura, a quantidade de não ditos e não feitos que ficaram suspensos no ar. A declaração de amor que não se fez. A mudança de emprego que nunca arriscámos. O agradecimento por algo que não chegou a ser feito. O reconhecimento que se sentiu, mas não foi verbalizado. O pedido de casamento que ficou preso na garganta. O abraço desejado e sempre contido. O mal-entendido que não foi clarificado. O pedido de desculpas que, apesar de sentidas, nunca foram expressas.

Estes não ditos e não feitos tendem a acumular-se em zonas estranhas do nosso corpo e geram sensações ainda mais estranhas. Fazem-nos sentir emoções desagradáveis. Dão-nos dores de cabeça. Tiram-nos o sono e o apetite. Impedem-nos de sorrir ao ver a beleza do sol e da lua. Fazem com que o nosso coração bata mais depressa e a respiração fique ofegante. Deixam-nos prostrados e sem energia. E retiram-nos o brilho dos olhos.

Às vezes é bom parar e entrar em modo de pausa. Que é como quem diz, reflectir sobre tudo isto. E acho sinceramente que essa hora é agora. Apesar da correria em que andamos a tentar conciliar tudo e mais alguma coisa, penso que cada um de nós devia parar 5 minutos e pensar. O que tenho eu por dizer? O que tenho eu por fazer?
É que amanhã pode ser tarde demais.

Confesso que, ao escrever esta crónica, também eu estou a sentir uma enorme angústia. Porque percebo que também eu tenho não ditos e não feitos. E não são poucos. Há agradecimentos que nunca fiz e pedidos de desculpa que estão pendentes. Há projectos que tenho adiado por receio… nem sei bem do quê. Há pessoas que adoro e a quem não o digo as vezes necessárias.

É preciso coragem para dizer o que nunca dissemos e para fazer o que nunca fizemos. Que seja esta uma altura de coragem, de arriscar e de não perder tempo. Porque o tempo é isto… já passou.

Que possamos todos um dia rebobinar a cassete da nossa vida e sorrir ao percebermos que aquilo que é verdadeiramente importante foi dito e foi feito.