Terminar uma amizade custa mais do que o fim de um amor

Existe um arquivo inesgotável de literatura, filmes, música ou arte sobre o momento doloroso que é o fim de uma relação amorosa. No entanto, quando falamos do final de uma amizade, parece que cada um está por si.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

Um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos, defende que as amizades vão assumindo maior importância à medida que vamos crescendo. E que, enquanto adultos, estas são um indicador mais forte de bem-estar emocional do que as relações familiares.

Se assumem este papel determinante, por que não falamos do que fazer quando é necessário acabar uma amizade? «Porque existe a expetativa de que as amizades são fáceis quando somos adultos. E claro que isto não é verdade na maioria das vezes», responde à TIME a terapeuta Miriam Kirmayer.

Os altos e baixos – e o fim, quando necessário – de uma amizade podem custar mais do que terminar uma relação. Estas são algumas das razões.

NÃO SABEMOS O QUE DIZER

A terapeuta afirma que tendemos a achar que uma amizade acaba quando «existe uma grande traição. Nestas situações, é fácil apontar um motivo à outra pessoa.» No entanto, o que acontece muitas vezes é que as pessoas simplesmente seguem caminhos diferentes, seja por fatores externos, como distância ou estilos de vida distintos, seja porque divergem em opiniões. Nestes casos, é difícil tomar a iniciativa de conversar e colocar um ponto final na relação. Num namoro, precisamos desse momento para sentir que o ciclo se fechou. Numa amizade, pode parecer confuso e doloroso ter de fazê-lo e, por isso, optamos pelo silêncio.

SENTIMOS VERGONHA POR NÃO TER FUNCIONADO

Como o fim de uma amizade não é discutido com a mesma frequência que um relacionamento amoroso existe um sentimento de fracasso que acaba por tomar conta da situação. «As pessoas sentem que deveriam ter resolvido, sentem que são as únicas a passar por aquilo. E não é verdade», diz Kirmayer. Existe também a ideia preconcebida de que uma amizade dura a vida toda e, segundo a terapeuta, há que ter uma visão mais realista entre amigos, para lidar com um possível fim de forma natural. E, acima de tudo, não significa que fomos maus amigos, significa apenas que a relação não estava a funcionar.

TEMOS DEMASIADAS EXPETATIVAS

A psicóloga Marni Feuerman explica a diferença importante entre amigos e companheiros. «Quando assumimos uma relação, consideramo-nos um casal e o caminho está traçado: namorar, casar, ter filhos. Até se assina um documento a assinalar a união. Não é o que acontece com amigos. Não há essa linha tão definida». Ou seja, é possível que, numa amizade, as duas pessoas estejam com uma dedicação distinta e esse desequilíbrio resulte numa separação. «Não queremos expressar as nossas necessidades e vê-las rejeitadas», diz Feuerman, «preferimos antes ficar calados e deixar passar». Esta falta de comunicação pode magoar ambos, já que o outro pode ficar a questionar-se o que se passa ou o que fez de errado.

QUAIS SÃO OS TERMOS DO FIM DE UMA AMIZADE?

Quando nos separamos de um parceiro, conversamos sobre a possibilidade de ficarmos amigos, de ficarmos um tempo sem contacto ou ir cada um à sua vida. Quando uma amizade termina, esses termos estão menos definidos. «Existe muita confusão nestes momentos. Podemos continuar a fazer parte dos grupos de conversa? Podemos ver-nos em circunstâncias sociais? Apagamos todas as recordações até então? Estas perguntas sem resposta podem resultar em situações constrangedoras e sofrimento desnecessário para ambas as partes», diz Feuerman.