TikTok, Fortnite e afins

O mundo virtual é muitíssimo apelativo e, hoje um dia, parece que as crianças aprendem a navegar na internet ainda antes de saberem andar. Bem, estou a exagerar um pouco, é certo, mas a realidade não anda muito distante. Com o foco no público mais novo, desenvolvem-se aplicações, redes sociais e jogos multijogadores que permitem comunicar e interagir em tempo real com amigos. Com amigos e inimigos.

Apesar de algumas destas aplicações estarem teoricamente pensadas para serem utilizadas com uma idade mínima de 13 anos, a verdade é que é mesmo apenas em teoria. Na prática, alteram-se as datas de nascimento, habitualmente com o conhecimento e o consentimento dos pais, e prossegue-se na sua instalação e utilização. Uma vez instaladas, as crianças (tantas vezes com apenas 8 ou 9 anos de idade) usam e abusam, fazem vídeos e publicações, contam os likes e aguardam os comentários.

Por outro lado, temos os jogos interactivos que envolvem múltiplos jogadores, como o Fortnite, sucesso estrondoso entre os miúdos mais novos. Em todo o lado os vemos a dançar as suas danças, mascarando-se no Carnaval das personagens preferidas.

Contactar uma criança através destes jogos e aplicações é muito fácil. Demasiadamente fácil. Os predadores fazem-se passar por quem não são, assumindo uma identidade e idade falsas.

Sabemos que estes jogos e redes sociais desempenham um papel muito importante na vida das crianças, favorecendo sentimentos de integração e de pertença a um grupo. Algumas crianças experienciam mesmo sentimentos de exclusão quando percebem que são das poucas da sua rede de amigos e colegas que não os usam. Ao mesmo tempo, se usados por crianças mais novas e necessariamente imaturas, sem uma adequada supervisão parental, os riscos são imensos.

Contactar uma criança através destes jogos e aplicações é muito fácil. Demasiadamente fácil. Os predadores fazem-se passar por quem não são, assumindo uma identidade e idade falsas. Inicia-se o processo de aliciamento, onde se mostram simpáticos, elogiam e estabelecem uma relação de confiança com a criança. Uma vez conquistada esta confiança, incentivam-na a comunicar através de outros meios (como o WattsApp ou o Snapchat, por exemplo), onde pedem fotos e vídeos, progressivamente de cariz mais sexual. E muitas crianças enviam, acreditando que uma vez não faz mal. Que o seu “amigo” irá depois apagar os ficheiros. A escalada continua e podem surgir ameaças de partilha de ficheiros caso a criança quebre o segredo. Muitas vezes, ainda, conseguem marcar-se encontros offline e os abusos sexuais assumem novos contornos.

Perante tudo isto, o que fazer? Proibir as crianças de usarem toda e qualquer aplicação, rede social ou jogo será a solução?

Não, a solução passa por conversar abertamente com as crianças sobre estes assuntos, sem medos nem tabus, chamando as coisas pelos nomes. Ao mesmo tempo, supervisionar e estar atento a alguns sinais de alerta. Apesar de não existir um quadro sintomático específico destas situações, devemos suspeitar quando percebemos que a criança evidencia alterações de humor (p. ex., sentir-se mais triste, ansiosa, irritada ou com medo) ou comportamento (p. ex., mostrar-se mais passiva ou agressiva, exibir alterações no sono ou padrões alimentares, alterar o seu desempenho académico, isolar-se).

Se identificar algum sinal de alerta, converse com a criança de forma tranquila, mostre-se disponível para a escutar e ajudar, sem repreensões, juízos de valor ou culpabilização.

A internet faz parte do quotidiano de todos nós e encerra em si tantas possibilidades e desafios, quanto perigos e ameaças. Neste contexto, as crianças devem ser ajudadas a conseguir uma utilização segura, sabendo identificar potenciais situações de risco e desenvolvendo competências para pedir ajuda face às mesmas.