Tomar suplementos de vitamina D: sim ou não?

A exposição solar é essencial para manter os níveis de vitamina D.

Há alguma polémica em torno deste tema, mas parece consensual que existe uma elevada carência de vitamina D na população portuguesa. Será, então, aconselhado tomar suplementos contendo esta vitamina? Há quem garanta que sim, mas a resposta não é clara. DGS prepara-se para lançar uma nova norma sobre o tratamento do défice deste nutriente.

Texto de Joana Capucho

Durante muito tempo, Steve Jones, geneticista britânico, comparou os suplementos vitamínicos à homeopatia. Para o professor da University College of London, estes não tinham qualquer efeito, mas a sua opinião parece ter mudado nos últimos anos. Agora, o cientista toma suplementos de vitamina D diariamente. No festival literário de Hay, em maio, Jones pediu às pessoas que tomem suplementos de vitamina D, especialmente as crianças, que passam menos uma hora ao ar livre do que há dez anos – e o sol é essencial para sintetizar esta vitamina.

As declarações do cientista voltaram a trazer para a ordem do dia este tema, que nos últimos anos tem motivado diversas discussões, nomeadamente devido ao aumento das vendas de medicamentos que contêm vitamina D em Portugal. Uma das questões que se coloca é se faz sentido a toma generalizada dos suplementos desta vitamina lipossolúvel num país com sol como Portugal – e as opiniões dividem-se.

Para Pereira da Silva, especialista em reumatologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), “é razoável a proposta de suplementação para toda a população e, sobretudo, para os que estão em maior risco. Ou a exposição solar, ou a suplementação, porque, infelizmente, a alimentação não fornece uma grande quantidade de vitamina D”.

Destacando que toma suplementos de vitamina D, tal como os seus pais, o médico, investigador principal do estudo “A carência de vitamina D em Portugal”, confessa que não tem a certeza que lhe vão fazer bem. “Mas tenho uma boa sugestão que sim e não tenho o menor receio que faça mal”. Segundo o reumatologista, este é um produto “que sugere ser benéfico para uma variedade grande de indicadores de saúde, é muito barato e praticamente não tem riscos”.

Atualmente, existem “provas seguras” de que a carência desta vitamina lipossolúvel está associada ao raquitismo na infância e à osteomalacia e osteoporose na idade adulta. “E há evidências que sugerem que há uma quantidade grande de benefícios em fazer reposição de vitamina D, particularmente em quem tem carência, e que vão desde uma menor incidência de cancro, de insuficiência cardíaca, de diabetes, de infeções”, afirma Pereira da Silva.

Dentro da comunidade médica, as opiniões divergem. Para Margarida Dias, coordenadora de Medicina Geral e Familiar do Hospital CUF Descobertas, “é necessária mais evidência, a partir de estudos desenhados que demonstrem o resultado da suplementação com vitamina D em grupos com deficiência de vitamina D e a validação das vantagens que isso introduza na saúde”.

Em Portugal, os suplementos de vitamina D são recomendados para crianças até aos 12 meses, para os idosos e para as mulheres pós-menopáusicas com risco de osteoporose. Margarida Dias lembra que “a suplementação da alimentação com vitamina D tornou-se um tema atual, em parte porque um conjunto de propriedades importantes e benéficas para a saúde tem-lhe sido atribuído, mas também porque, e na realidade do nosso país, estudos populacionais divulgaram que a carência de vitamina D existirá em mais de 60% da população”.

Mais de metade da população tem carência

Foi essa uma das conclusões do estudo coordenado por Pereira da Silva. De acordo com a investigação “A carência de vitamina D em Portugal”, que envolveu mais de 3000 pessoas entre 2012 e 2013, mais de 60% da população portuguesa tem valores inferiores a 20 nanogramas por mililitro (ng/ml), sendo que as taxas de insuficiência são mais baixas no inverno e na primavera e em zonas como os Açores – porque há menos exposição ao sol. Daí que, na opinião do reumatologista do CHUC, a suplementação deva ser feita “no inverno e primavera caso se apanhe sol suficiente no verão. Caso contrário, deve ser feita todo o ano”.

Segundo o mesmo estudo, a população com mais de 70 anos apresenta um risco maior de carência desta vitamina, bem como aqueles que apresentam excesso de peso.

Apesar de existir alguma discrepância entre o que as organizações internacionais consideram valores normais, Pereira da Silva diz que abaixo de 20 ng/ml são “valores seguramente insuficientes” de vitamina D. Aproximadamente 21,2% dos inquiridos tinha níveis abaixo dos 10 ng/ml, “o que é considerada uma carência grave, que coloca as crianças em risco de raquitismo”. Embora os números pareçam alarmantes, o reumatologista assegura que estão em linha com o que se passa no resto do mundo.

A que se deve essa carência tão elevada de vitamina D? “Em Portugal, como no resto do mundo, nós fugimos do sol”, diz o especialista em reumatologia. “Os hábitos alimentares são de menor importância, mas a proteção contra o sol e a diminuição do trabalho e da vida no exterior são seguramente fatores muito importantes para isso”, explica Pereira da Silva, destacando que “o protetor solar impede completamente a produção de vitamina D”.

Segundo o especialista, “é possível produzir vitamina D com exposição solar entre março e abril e até setembro ou outubro, tipicamente entre as 10.00 e as 16.00 e dependendo da nebulosidade”. Mas esse é precisamente o período em que as autoridades de saúde desaconselham a exposição solar. No entanto, Pereira da Silva diz que basta uma quantidade pequena de exposição solar para garantir a produção de vitamina D: “Se apanhar dez minutos de sol [por dia] durante o verão, entre as 10.00 e as 16.00, produz vitamina D para passar o inverno”. Ressalvando que as pessoas obesas precisam de uma exposição maior, deixa um alerta: “Só se consegue produzir vitamina D quando o sol está a 45 graus – se a sombra for maior do que nós, já não estamos a produzir esta vitamina”.

A suplementação na infância

As recomendações que existem em Portugal são para fazer a suplementação com vitamina D em crianças até aos 12 meses, pois o leite materno contém quantidades baixas deste nutriente. “Isso é consensual, até porque as crianças não devem ter grande exposição solar no primeiro ano de vida”, explica o pediatra Hugo Rodrigues. Segundo o mesmo, “após o primeiro ano não é tão consensual”. Embora “a maior parte dos estudos mostrem que há uma grande carência na população”, os métodos e os valores de referência levantam dúvidas. “Há sociedades que recomendam fazer a suplementação a partir do primeiro ano nos meses de inverno, outras omitem. Não há nenhuma que desaconselhe”.

Na sua prática clínica, o pediatra Hugo Rodrigues tende a recomendar a toma desta suplementação nos meses de inverno. “E que os adultos deixem as crianças brincar na rua”. Se passarem muito tempo no exterior, admite, os suplementos podem não ser necessários. Alertando para a importância de ter cuidados com a exposição solar, diz que há uma recomendação que pode fazer sentido. “Teoricamente, o protetor solar deve ser colocado meia hora antes da exposição solar. Se colocarmos na hora, conseguimos que haja alguns minutos em que a proteção não está no pico e, assim, há um aumento da produção de vitamina D”.

Investigação à venda de suplementos

Em 2017, a SIC fez uma investigação na qual revelou que entre 2015 e 2016 os portugueses quintuplicaram o valor gasto em medicamentos para tratar o défice de vitamina D. Passaram de 1,1 milhões de euros para 5,7 milhões.

Após a publicação desses dados, o Infarmed, a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Instituto de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) anunciaram que iriam investigar como estava a ser feito o diagnóstico e tratamento nacional do défice de vitamina D, através de uma “avaliação firme e rigorosa”.

Contactada pelo DN, a DGS diz que “em conjunto com o INFARMED, o INSA e a ERS [Entidade Reguladora da Saúde] desenvolveram desde outubro de 2018 esforços conjuntos para a garantia da prestação de cuidados de saúde de qualidade no referente ao diagnóstico e tratamento da insuficiência e deficiência de vitamina D”, mas não esclarece quais os resultados da investigação. Na sequência desse trabalho, a DGS elaborou “uma norma clínica intitulada ‘Prevenção e Tratamento da Deficiência de Vitamina D’, que brevemente será publicada”.