Treinadores de bancada

Assistir a um jogo desportivo de crianças ou jovens, seja qual for a modalidade, revela-se hoje em dia um verdadeiro desafio para os adultos. Não pelo que se passa em campo, mas sim pelo que se passa nas bancadas.

Antes ainda do jogo ter início, já os pais e avós, tios e primos, e sabe-se lá quem mais, opinam sobre tácticas e estratégias, incentivando uma abordagem dura e ofensiva. O jogo inicia-se e logo começam os gritos e as ofensas, que não deixam ninguém imune. Desde os treinadores aos árbitros, passando pelos jogadores da outra equipa, todos são vaiados e ameaçados. Os filhos, esses, ouvem de tudo um pouco. Desde críticas mais focadas no seu desempenho até um simples “ata bem os ténis!!”

Será que os adultos pensam no seu próprio comportamento e no impacto que este pode ter, não apenas naquele jogo em concreto, mas também nas aprendizagens a médio e longo prazo? Será que os adultos se questionam sobre o papel primordial que desempenham, enquanto principais modelos dos seus filhos?

As crianças aprendem de formas muito diversas, uma das quais pelo que observam. E pelo que observam, acima de tudo, naqueles que se constituem enquanto modelos. Sendo que os seus principais modelos são os seus pais, o grupo de pares e todas as outras pessoas com quem simpatizam e empatizam.

Ao questionarem as abordagens dos treinadores e ofenderem as equipas adversárias, o que ensinam estes pais aos seus filhos? Será que ensinam tolerância e espírito de equipa, entre ajuda e cooperação?

Não. Estes pais ensinam, sim, a questionar e desafiar as figuras de autoridade. Ensinam a resolver as situações de divergência através da agressividade. Ensinam tudo aquilo que uma cultura do desporto repudia.

As crianças e jovens precisam de incentivos e reforços positivos, a par de críticas construtivas, que os ajudem a melhorar e a crescer num contexto de aceitação e tolerância à frustração. Precisam de sentir-se apoiados e compreendidos, de uma forma incondicional. Não precisam de gritos nem ameaças, que os humilhem e envergonhem. Não precisam de críticas destrutivas que apenas contribuem para a destruição da sua auto-estima e auto-confiança.

Penso que, como adultos e como pais, temos ainda muito a aprender.
Queremos que os nossos filhos sejam tolerantes, compreensivos e assertivos. Mas ensinamos intolerância e agressividade.

Queremos que os nossos filhos sejam seres humanos empáticos e apoiantes. Mas ensinamos auto-centração.

Queremos que os nossos filhos se divirtam enquanto praticam desporto. Mas fazemo-los sentir que apenas vale a pena participar se for para ganhar.
Vale a pena pensar sobre tudo isto.