Treinar até doer: o vício que faz sofrer por gosto mas pode fazer mal à saúde

A máxima inglesa no pain, no gain – que diz que não vamos a lado nenhum sem dor – é bastante inspiradora, sobretudo nos momentos em que parece que o coração nos quer saltar pela boca. Mas devemos segui-la à risca?

Texto de Ana Pago

Nos desportos de combate são as nódoas negras, articulações magoadas e uns narizes partidos, com toda a gente à volta a chamar-nos doidos. No CrossFit são os exercícios de alta intensidade, explosivos e pesados. Nos bootcamps, de género militar trituram os participantes com abdominais, quilómetros de corrida e mil repetições disto e daquilo após um dia de trabalho – várias vezes por semana. O que nos leva às questões de um milhão de euros: que vício é este, afinal, que nos faz sofrer por vontade própria? E ainda por cima com prazer? E que efeitos tem isso na nossa saúde?

“Poderá tratar-se de uma adição ao exercício físico. Um impulso incontrolável de continuar a praticar um desporto, mesmo que acarrete danos físicos ou consequências negativas para a saúde”, diz o psicólogo clínico Fernando Lima Magalhães, especializado em transtorno dismórfico corporal e vigorexia (transtorno em que os pacientes manifestam uma preocupação duradoura com a sua aparência física, levando-os à prática constante e exaustiva de exercício físico). O facto de não existir um diagnóstico oficial para esta adição não quer dizer que não se saiba já muito sobre ela.

“Algumas pessoas ‘torturam-se’ porque se habituaram a ignorar os sinais físicos e mentais que nos indicam que estamos a ultrapassar os limites do nosso corpo, como sentir dor, falta de ar ou exaustão”, diz o psicólogo Fernando Lima Magalhães.

“Algumas pessoas ‘torturam-se’ porque se habituaram a ignorar os sinais físicos e mentais que nos indicam que estamos a ultrapassar os limites do nosso corpo, como sentir dor, falta de ar ou exaustão”, reforça o psicólogo. A estes, somam-se outros indicadores que traçam um quadro mais completo: reduzir o trabalho e o contacto com a família e amigos para ir treinar; sentir irritação ou ansiedade se falha o treino; deprimir após um período sem exercício; nunca parar apesar de lesões ou cansaço.

Embora importe dizer que ninguém se sujeita à dor por ser masoquista, mas por haver um objetivo por trás dos resultados que essa dor lhe permite alcançar, diz Nuno Carneiro, praticante intensivo de artes marciais (Jisei Budo, com algum Systema e FMA pelo meio) e a concluir o curso de técnico especialista em exercício físico no CEFAD – Formação Profissional, em Lisboa. “Esta tortura advém da paixão, vontade e motivação pelo treino de uma modalidade porque isso conduz a um estado de realização pessoal que se sobrepõe ao resto.”

Outra explicação, segundo o psicólogo Fernando Lima Magalhães, é a de que ao fazermos exercício físico libertamos endorfinas a que nos habituamos facilmente, de tão boas. “São neurotransmissores que criam uma sensação de prazer, relaxamento e efeito analgésico, pelo que algumas pessoas não resistem a sentir esta resposta gratificante que acaba quando deixamos de nos exercitar”, diz.

Nem todas as dores são más. Muitas são apenas um processo natural do treino, adaptativas.

Além de que nem todas as dores são más, ressalva Nuno Carneiro. Muitas, defende, são apenas um processo natural do treino, adaptativas, como quando alguém inicia, intensifica ou muda de prática e no dia seguinte mal se mexe. “A isto chama-se dor tardia, que passa com repouso, boa alimentação e tende a não reincidir se o treino for continuado.”

Noutros casos, envolvendo fraturas ou problemas articulares menos graves em que a dor emocional pode ser maior do que a dor física, também não é isso que faz os lesionados desistirem do treino graças ao tal objetivo maior que os motiva. “Isto não significa que se vá treinar em cima da lesão, que configura uma regressão e não traz benefícios”, acrescenta o técnico especialista em exercício físico. Não é à toa que atletas e praticantes experientes insistem num caminho paralelo ao treino – o da recuperação – para se tornarem mais fortes.

O que nos leva à segunda questão de um milhão de dólares: este comportamento enquadra-se na vigorexia ou tem outro nome qualquer?

Tem alguma relação com a vigorexia mas será algo distinto, defende Fernando Lima Magalhães: “Enquanto nesta o foco é obter um aspeto e forma ideais, ou um corpo extremamente definido, na adição pelo desporto é a procura das sensações provocadas pelo exercício, como a euforia de um resultado ou o prazer de obtê-lo”, diz o psicólogo clínico. Pelo caminho, sucede algumas pessoas começarem a fazer desporto à procura de um corpo escultural e acabarem viciadas nas sensações físicas do próprio desporto.

Nuno Carneiro (à esquerda) já treinou com os pés em ferida e mais umas quantas mazelas. Mais doloroso do que a própria dor é ficar aquém dos objetivos na prática de Jisei Budo.

Nuno Carneiro concorda com esta distinção: “Não é igual ter uma perceção errada da autoimagem e treinar em excesso para ficar um Adónis, ou treinar duramente para obter resultados sabendo o que já alcançou e lhe falta alcançar”, explica o praticante de artes marciais, que malha muitas vezes com os pés em ferida e à beira das lágrimas pela segunda razão, nunca pela primeira. “Até pode haver dor física e emocional em ambas, mas são caminhos diferentes. Eu próprio cometo muitos erros e não sou vigorético.”

Ou então talvez as duas coisas se cruzem a dada altura, na medida em que são uma obsessão com o desporto que pode atingir níveis considerados patológicos, contrapõe Marta Andrade, química numa empresa farmacêutica. Marta chega a casa e vai nadar uma hora todos os dias. Segue-se uma a duas horas de corrida ou bicicleta em dias alternados. “Meti-me no triatlo há quatro anos, adoro participar em provas. O que acontece é que nos impomos estes objetivos e nada, nem ninguém, nos demove.”

E sim, as pernas doem-lhe constantemente. Também já teve acidentes e treinou em cima de lesões, incluindo uma na cartilagem do joelho direito que a incomodava bastante. Porém, parar ia doer-lhe mais do que essas dores físicas: “Sei que por vezes exagero, mas chego ao fim e fico satisfeita, ainda que esteja uma semana sem andar”, reconhece Marta Andrade. Pode acabar toda massacrada que no dia seguinte volta de novo, invariavelmente. “Sabe a sensação de que conseguimos? É um desespero não fazer.”

Para Marta Andrade, a sensação de que conseguiu superar-se compensa todos os esforços. (Foto de Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Para o American College of Sports Medicine, a associação americana de medicina desportiva e ciência do exercício, manter uma prática saudável de treino passa por três a cinco sessões semanais, com a duração de 30 a 60 minutos cada. Já a Organização Mundial de Saúde aconselha os adultos a praticar um mínimo de 150 minutos de atividade moderada por semana, podendo chegar às cinco horas para maiores benefícios.

“Se estes fatores estiverem alinhados, qualquer um pode atingir as suas metas sem pôr em causa a saúde”, confirma o personal trainer Pedro Almeida, da academia Treino em Casa. Na maioria dos casos, o essencial é focar as pessoas no seu objetivo e no que as faz felizes (de preferência em simultâneo). E então adequar o programa individualmente, respeitando de forma séria o treino, a alimentação e o repouso. “O limite do saudável é o exercício não estar acima de tudo, mas ser um complemento fundamental para viver melhor”, reforça.

Até porque definir o excesso também não é fácil, sublinha Joaquim Fonseca Esteves, especialista em medicina interna e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva: “Os vários tipos de exercício físico têm repercussões orgânicas muito específicas consoante se trate de atletas de competição profissionais, desportistas amadores ou praticantes para prevenção e tratamento de doenças.”

Alguém que treine só uma a duas vezes por semana pode estar a abusar tanto (em intensidade) como alguém que abuse em quantidade.

Como se não bastasse, cada um destes três grupos apresenta modificações secundárias ao tipo, intensidade, volume e nível de esforço realizado, com repercussões psíquicas, metabólicas, endócrinas, cardiovasculares, musculares e osteoarticulares. “Além disso, desportos de maior contacto como os motorizados, as artes marciais, boxe, râguebi ou mergulho envolvem, à partida, maiores riscos e acidentes mais graves”, diz.

Já para não falar que alguém que treine só uma a duas vezes por semana pode estar a abusar tanto (em intensidade) quanto alguém que abuse em quantidade, sobretudo se não tiver uma boa preparação física. “Qualquer que seja o caso, a existência de alguma dor ou outros sintomas que surjam com o esforço, que não sejam as dores musculares normais naquela situação específica, requerem observação clínica”, avisa o especialista em medicina desportiva.

Em última análise, importa ter presente que demasiado de uma coisa boa pode tornar-se uma coisa má, pelo que convém seguir certas regras básicas:

RESPEITE OS SEUS LIMITES
Exercício físico desmedido, sem respeitar os sinais que o corpo dá, podem resultar em consequências graves a que ninguém quer chegar. Vá com calma, sobretudo se está a iniciar ou a regressar a uma atividade.

PROCURE UM ORIENTADOR
O acompanhamento de um personal trainer permite maximizar o treino com uma margem mínima de erro, já que se adapta às necessidades, características e objetivos específicos de cada um. Procure esta ajuda, sobretudo numa fase inicial.

MENOS PODE SER MAIS
Saltar treinos achando que depois compensa tudo num dia não funciona: desgasta os músculos quando devia estar a recuperá-los e impede a aceleração natural do metabolismo após cada sessão. Resultados lentos são mais saudáveis e duradouros.

DESCANSE O SUFICIENTE
Dormir entre 7 e 9 horas é essencial para o corpo recuperar de um treino intenso, visto ser no sono profundo que se liberta a hormona do crescimento – a mesma que conduz a uma tonificação muscular. Dar o litro não significa cair para o lado nem lesionar-se.

COMA DE MANEIRA CORRETA
Da mesma forma, é importante fazer diariamente uma alimentação saudável, que permita queimar mais calorias do que as ingeridas e ter energia suficiente para treinar e recuperar do esforço. Além, claro, de ajudar a manter o peso no lugar sem dietas loucas.