Um bâton de cada vez. Até à vitória final

Durante anos foi um objetivo (ou, vá lá, um ponto a favor) de cada vez que procurava casa: queria uma que tivesse casa de banho com janela. Agrada-me a ideia de ter luz natural num cubículo pequeno onde passamos tanto tempo – sobretudo depois de ter filhos, já que é a única divisão onde ainda se consegue ter alguns minutos de aparente sossego. Hoje, que vivo numa casa que tem WC com janela, tenho a fasquia um pouco mais elevada: na próxima, quero uma abertura para o exterior E uma bancada em condições. Daquelas grandes, onde cabem muitos frascos e embalagens, capaz de acumular pó e pedaços de sabão seco, mas suficientemente extensa para caberem ali os essenciais de higiene e beleza da minha mulher. Pode ser que assim ela não continue o processo de colonização das minhas prateleiras.

Não é que o tema me roube horas de sono. Mas à custa de tantos centímetros preciosos que fui perdendo para os meus parcos haveres cosméticos, conversei com alguns amigos. Eles sofrem do mesmo mal às mãos das mulheres deles. Pouco a pouco, elas vão alargando a área de influência. Até ao dia em que perdemos o usufruto do espaço que antes era nosso. Chama-se usucapião e, em direito, designa o direito de domínio que alguém adquire sobre um bem (móvel ou imóvel) por o ter utilizado durante algum tempo, como se fosse o real proprietário. Ou seja, onde antes havia um desodorizante, uma lâmina de barbear e um pente (eu nem isso uso), estão agora dois vernizes, uma escova e uma lima de unhas. E nem demos por isso.

Eu até sou um tipo generoso. E gosto de pensar que não sou muito comichoso (a minha mulher é capaz de não concordar). Se não preciso de tanto espaço, não me importo de ceder algum. Mas, caramba, há limites. Atualmente, no nosso armário da casa de banho, uma prateleira é minha, duas são comuns e quatro são dela. Ao início eram três, mas eu lá juntei os meus tarecos para ela ter por onde se esticar mais. Problema resolvido? Não! Como tenho alguns milímetros livres nos intervalos entre o creme de rosto, o perfume, o esfoliante e o desodorizante, ela vai-se esquecendo pontualmente de algumas coisas por lá. “Posso escrever sobre as coisas todas que tens no armário e o que vais deixando do meu lado?”, perguntei-lhe ontem. “Podes. Mas, antes de te queixares, pensa que até sou bastante minimalista. Quatro prateleiras não são nada.”

A única coisa boa no meio disto é que tenho aprendido algumas coisas sobre maquilhagem. Continuo sem entender por que raio são precisos tantos tons de vermelho nos vernizes, mas já sei o que é uma base fortificante para unhas, que o rímel agora se chama “mascara”, que as bases em pó são compactas e as líquidas são em creme e se aplicam com pincel, dedos ou esponja. O lápis para o risco na pálpebra chama-se eyeliner e para tirar aquilo tudo da cara usam-se discos desmaquilhantes, desmaquilhante de olhos e creme desmaquilhante – embora eu goste quando ela se deita com aquilo tudo na cara e acorda com a almofada (e o rosto) irreconhecível, porque é sinal de que tivemos uma valente noite de copos (o que não acontece há uns tempos).

Esqueçam as gavetas da cómoda. O grande palco das disputas pelo espaço físico conjugal, aquele que se vai conquistando, um bâton de cada vez, é mesmo o armário da casa de banho. E não digam que a coisa se resolve facilmente com um armário para cada um e não se fala mais nisso. Talvez seja possível nas vossas casas de banho de gente rica, mas nas outras, de pessoas normais, remediadas, em que temos de encaixar em quatro ou cinco metros quadrados forrados a azulejo o essencial para a fisiologia, para a higiene e para a vaidade, toda a área útil conta. Pelo menos até mudar para a casa com a bancada grande.

[Publicado originalmente na edição de 12 de abril de 2015]