Um beijo não é só um beijo

Ao contrário do que cantava Dooley Wilson em Casablanca, um beijo tem muito que se lhe diga, seja romântico, fraterno ou simples cumprimento social. Não se lhe conhece a origem, mas os pergaminhos remontam bem lá atrás. Já a forma e o uso que se lhe dá variam consoante geografia, cultura, religião, género e até classe social. Ora, tome lá um beijo. Ou dois.

Texto de Catarina Pires

A comunicação por mensagem escrita, via e-mail, sms ou Messenger é a mais recente prova de que o beijo é questão complexa, a merecer ciência que o decifre. Entre o singular beijo, por extenso ou abreviado (bj) e o plural beijos (bjs), há uma série de declinações, que passam pelos beijinhos ou as beijocas, ambas com abreviaturas próprias (bjns e bjcs), e que podem assumir os mais diversos significados, nas mais diversas matérias.

O beijo, romântico ou social, na mão, na cara ou na boca, por escrito ou ao vivo, reflete a personalidade de quem o dá – já para não falar na nacionalidade, género e classe social -, o grau de intimidade entre quem o troca e a finalidade com que é dado.

Vivian, a prostituta de Pretty Woman [Um Sonho de Mulher], papel que deu a Julia Roberts o estatuto de estrela intergaláctica, tinha uma regra: não beijar os clientes. O beijo não estava à venda, era como que a sua reserva romântica, guardado em exclusivo para o amor, que acabaria por levá-la a ceder ao beijo de Edward [Richard Gere], para gáudio do próprio e dos milhões de espectadores do maior sucesso romântico do grande ecrã nos anos 1990 em todo o mundo.

Dir-se-ia, pelo lugar que ocupa na literatura, no cinema, na TV e nas relações entre as pessoas, que o beijo é património da humanidade, mas um estudo antropológico recente põe em causa essa ideia. Um artigo publicado no American Anthropologist, em 2015, e divulgado pela prestigiada universidade norte-americana de Yale, revela os resultados de um estudo alargado que analisou 168 culturas e sugere que o beijo romântico não só não era universal como só era conhecido e popular entre 46% dessas culturas. O mesmo estudo avançava que, quanto mais complexa e estratificada a sociedade, mais presente e natural o beijo romântico, ou seja, o beijo na boca como forma de expressão de afeto, paixão e desejo, nomeadamente de passar a vias de facto, também conhecidas como sexo.

Darwin estabeleceu um paralelo entre o beijo e vários “comportamentos semelhantes”, observando que esfregar narizes e outras práticas do mesmo tipo geralmente servem um propósito parecido e poderiam ser um precursor (ou equivalente) do moderno (ou “desenvolvido”) beijo na boca romântico.

Sheril Kirshenbaum, autora de The Science of Kissing [A Ciência do Beijo], ed. Grand Central Publishing, discutiu os resultados deste estudo no jornal The Guardian, evocando Charles Darwin em defesa da sua tese – a de que o beijo, se não é universal, anda lá perto, e até os extraterrestres gostariam, se experimentassem.

O pai da teoria da evolução das espécies descreveu o beijo no seu livro The Expression of the Emotions in Man and Animals [A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais], de 1872, estabelecendo um paralelo entre este e vários “comportamentos semelhantes”, observando que esfregar narizes e outras práticas do mesmo tipo geralmente servem um propósito parecido e poderiam ser um precursor (ou equivalente) do moderno (ou “desenvolvido”) beijo na boca romântico.

A lista de “comportamentos semelhantes ao beijo” de Darwin incluía, relata a investigadora, uma série de trocas entre indivíduos que se concentravam no uso dos lábios, do rosto e de outras partes do corpo e que passavam por “roçar braços, mamas ou barrigas”. Após recolher vários exemplos de trocas semelhantes em todo o mundo, Darwin assumiu que refletiam um desejo instintivo de obter prazer através do contacto próximo com uma pessoa amada, concluindo que o impulso de beijar é inato nos humanos e pode ser considerado universal.

Dois beijos entre mulheres e homens ou entre mulheres é a fórmula mais comum de utilização do beijo como cumprimento social. Os homens entre si cumprimentam-se com um aperto de mão ou um abraço, se forem íntimos (beijos no masculino só entre irmãos, pais e filhos, outros familiares e namorados).

Esta não é uma matéria que reúna consenso, previne a divulgadora científica norte-americana, apontado a opinião de alguns antropólogos que sustentam que o beijo é um fenómeno cultural, aprendido pelo ser humano através do exemplo e da educação e hoje globalizado pelos meios de comunicação social.

A especialista, que estudou exaustivamente toda a literatura científica e investigação feita sobre o assunto, está com Darwin e considera o beijo um maravilhoso exemplo de um comportamento humano em que natureza e cultura se complementam. “Parece que temos um impulso inato de nos ligarmos ao outro através do beijo, mas a forma que este assume é influenciada pela nossa cultura, educação e normas sociais”, escreve Kirshen­baum no The Guardian. “Assim como Darwin observou há quase 150 anos, comportamentos semelhantes aos beijos parecem ser parte da nossa herança evolutiva, mas a forma como os expressamos em determinado tempo e lugar é fortemente influenciada pelo que é familiar nas nossas sociedades.”

Nem oito nem oitenta

Aprendi isso da forma mais difícil. Em casa, dou um beijo. Fora de casa, dois. Até começar a ficar pendurada: em situações formais ou informais, com pessoas que só dão um, seja qual for a circunstância, e com uma finlandesa, mulher de um fotógrafo com quem trabalhei numa reportagem na Finlândia que, tendo-me aberto a porta de sua casa, perante a minha intenção de a cumprimentar com dois beijos, deu um salto assustado atrás e estendeu-me a mão. Foi então que percebi que não se beija alguém que não fala a mesma língua, salvo seja, sem primeiro nos inteirarmos das regras de etiqueta “oscular” do país.

Dois beijos, um em cada bochecha, a começar da direita entre mulheres e homens ou entre mulheres é a fórmula mais comum de utilização do beijo como cumprimento social em todo o mundo e nesse caso os homens entre si cumprimentam-se com um aperto de mão ou um abraço, se forem íntimos (beijos no masculino só entre irmãos, pais e filhos, outros familiares e namorados).

Mas, lá está, países há em que os homens se cumprimentam com beijo na cara ou mesmo na boca, como é o caso da Rússia, enquanto noutros, como a Finlândia, ali ao lado, o cumprimento social fica-se pelo aperto de mão, sem discriminação de género, fórmula também preferida na fleumática Grã-Bretanha e na generalidade dos países anglo-saxónicos. Os países latinos, tanto da Europa como da América, são mais beijoqueiros e variam entre um e três beijos. Mas a quantidade de ósculos trocados pode chegar aos oito, em algumas latitudes, como o Afeganistão.

A Condé Nast Traveler compilou um guia em matéria de etiqueta de beijos, recorrendo aos ensinamentos do diplomata Andy Scott, autor de One Kiss or Two: In Search of the Perfect Greeting [Um Beijo ou Dois: em Busca do Cumprimento Perfeito].

É hoje comum só um beijinho entre os chamados “queques, betos, meninos bem, aspirantes a e afins”, permanecendo os dois beijos como costume entre os restantes portugueses, que segundo Elisabete Canha de Andrade, especialista em etiqueta, seguem o protocolo lógico. Um beijo dá-se, outro recebe-se e deixar alguém pendurado é falta de educação.

Ficamos então a saber que França tem os dois beijos como norma em Paris, mas na Provença a regra são três e no vale do Loire levam a mal menos de quatro. Na Colômbia, Argentina, Chile, Peru e Filipinas um beijo é a conta certa enquanto na Bélgica, Eslovénia, Macedónia, Montenegro, Sérvia, Holanda, Suíça, Egito e Rússia (quando não andam aos chochos) é de bom tom dar três beijos. O par de ósculos é, como já referimos, a fórmula mais comum, sendo regra em Espanha, Itália, Grécia, Alemanha (onde, em ocasiões mais formais, o aperto de mão é preferido aos beijos, reservados aos conhecidos), Hungria, Roménia, Croácia, Bósnia, Brasil, países do Médio Oriente (mas não entre homens e mulheres) e Portugal, onde, no entanto, a variante classe social introduziu novidades. É hoje comum só um beijinho entre os chamados “queques, betos, meninos bem, aspirantes a e afins”, permanecendo os dois beijos como costume entre os restantes portugueses, que segundo Elisabete Canha de Andrade, especialista em etiqueta, seguem o protocolo lógico. Um beijo dá-se, outro recebe-se e deixar alguém pendurado é falta de educação.

De onde veio a moda de “só um beijinho” não se sabe muito bem, mas Andy Scott pode ter a explicação para isso. Nota o diplomata citado pela Condé Nast Traveler que “estranhamente, há uma correlação inversa, em diversos países, entre o número de beijos e o nível de proximidade e intimidade entre as pessoas. É como se o segundo beijo de alguma forma cancelasse o significado do primeiro. Em vez de sinal de intimidade, torna-se muito mais ritualístico”.

Ora, sendo conhecido o carácter endogâmico das elites, que funcionam em circuito fechado, se em família se dá só um beijinho e se só se cumprimenta quem é da tribo, vá de cumprimentar só com um beijinho toda a gente que tem de se cumprimen­tar. No fundo, o que se tem atribuído a snobeira é capaz de ser exatamente o seu contrário.