Uma crónica em branco

Uma crónica em branco, com livre espaço para que cada pessoa imagine o que quer ler, é o que vos proponho esta semana. Uma espécie de texto (ou a sua ausência) interativo com o leitor. Como se, subitamente, a crónica ficasse personalizada e espelhasse a idiossincrasia de quem a olha. Uma crónica feita à medida de cada um e que traduza aquilo que cada um quer ler, ou consegue ler, ou está preparado para ler.

Ora vamos tentar.

O leitor tem abaixo um espaço em branco e nele pode imaginar escrito o que desejar, com total liberdade. Foque-se no espaço em branco e dê asas à sua imaginação. Se for preciso, feche os olhos para ser mais fácil, e demore o tempo que precisar.


 

 

 

 


Vejamos agora as questões que cada leitor deve responder para si próprio.

«Qual o tema do texto que se formou na minha mente?»

«O que pensei?»

«Que ideias surgiram?»

«O que senti enquanto lia o texto imaginado?»

«Porque será que surgiu este assunto?»

As respostas a estas questões são muito importantes, na medida em que o que pensou não terá sido, seguramente, completamente aleatório.

O que quer que tenha sido será, certamente, importante para si. Porque, no fundo, aquilo que fez foi projetar-se no espaço em branco. E quando nos projetamos, dizemos algo sobre nós próprios.

Talvez tenha até sido algo inesperado, algum assunto distante ou memória que há muito não tinha. Se assim foi, talvez seja importante pensar porque foi esse tema ativado. O que significa e o que diz de si? Foi um tema relevante porque suscita emoções positivas? Algo que o fez jubilar de alegria e esperança? Ou algo traumático e doloroso, que preferia arrumar num local recôndito da memória e esquecer? Porque se assim foi, vale a pena parar para pensar.

Se a crónica que há pouco leu (e que é somente sua, escrita e lida apenas por si) traduz um desses assuntos por resolver, talvez seja hora de o olhar de frente e enfrentar

Todos nós temos os chamados «unsolved businesses», assuntos por resolver que se arrastam no tempo e que evitamos como forma de não os confrontar. Assunto que não se resolvem por si, por mais que tentemos ignorá-los.

Se a crónica que há pouco leu (e que é somente sua, escrita e lida apenas por si) traduz um desses assuntos por resolver, talvez seja hora de o olhar de frente e enfrentar. É verdade que o confronto com temas difíceis pode ser muito doloroso, mas ignorá-los não custa menos.

Recordo uma sessão de terapia de grupo com jovens, em que surgiu o tema dos desejos. O que desejavam eles para a sua vida? Se pudessem pedir um desejo mágico a um qualquer génio da lâmpada, o que seria? Uns jovens pediam para ser ricos e ter tudo o que quisessem.

Outros acrescentaram que gostariam de viajar pelo mundo fora, saber tudo para já não terem de ir à escola, ser populares e ter muitos amigos. Foi então que outro jovem, indubitavelmente mais sábio, disse: «eu pedia para resolver todos os problemas que tenho dentro de mim».

Eu também.

 


Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.

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