Uma palmada na hora certa

Muitos pais questionam-se sobre se devem, ou não, dar uma palmada aos filhos como forma de corrigir os seus comportamentos desadequados.

Em boa verdade, este é ainda um tema pouco consensual na nossa sociedade, na medida em que existem argumentos contra e a favor da utilização deste método educativo. Vejamos então alguns desses argumentos, para que possamos reflectir de uma forma mais fundamentada sobre esta questão.

Os argumentos a favor das palmadas remetem para o facto de estas serem eficazes para parar de imediato os comportamentos desajustados, ao mesmo tempo que mostram aos filhos quem manda e detém o poder naquela relação. Os defensores das palmadas afirmam que também eles levaram muitas, quando eram mais pequenos, o que apenas contribuiu para fortalecer o seu carácter. Não são consideradas como uma forma de mau trato físico, o que aumenta a tolerância face às mesmas.

Do lado oposto temos a ideia de que as palmadas devem ser evitadas a todo o custo, na medida em que são eficazes, sim, mas apenas com crianças mais novas e a curto prazo. Quer isto dizer que facilitam somente o cumprimento das regras, e não a sua interiorização. Ou seja, quando educadas com palmadas, as crianças aprendem a cessar os seus comportamentos desajustados por receio da punição, apenas, e não porque aprendam a diferença entre o que é certo e errado. Se antecipam que pode não existir qualquer punição, então… repetem o comportamento inadequado. Por outro lado, com crianças mais velhas, as palmadas tendem a activar sentimentos negativos, como a raiva e o desejo de vingança.

Neste contexto, o que pensar e o que fazer?

Antes de mais, é importante salientar que existem numerosas estratégias educativas que os pais têm ao seu dispor, e que podem aumentar os comportamentos adequados ou, pelo contrário, diminuir os comportamentos desadequados. E logo aqui percebemos que os pais estão, mais frequentemente, centrados em eliminar os maus comportamentos do que em incentivar os bons comportamentos. E esta é uma mudança de paradigma que se exige no exercício da parentalidade.

Devem, ainda, ajudar os filhos a atingir os seus objectivos de uma forma gradual, com tarefas progressivamente mais difíceis.

Assim sendo, os pais devem reforçar os bons comportamentos, não com bens materiais, mas sim com actividades em conjunto, elogios e atenção. Acreditem, não existem reforços mais poderosos do que estes. Devem, ainda, ajudar os filhos a atingir os seus objectivos de uma forma gradual, com tarefas progressivamente mais difíceis. Mostrar como se faz e incentivar a que as crianças imitem, sendo que grande parte do processo de aprendizagem ocorre por modelagem (observação de modelos).

Quando as crianças exibem comportamentos desajustados, os pais têm à sua disposição diversas estratégias, sem que seja necessário recorrer à punição corporal. Porque é disso que falamos quando falamos em palmadas. Senão vejamos. Há comportamentos que podem ser ignorados, quando são pouco graves e percebemos que são reforçados pela atenção do adulto (p. ex., algumas birras). Outros comportamentos são mais graves ou mais frequentes e, por isso mesmo, exigem abordagens diferentes como, por exemplo, a retirada de privilégios (privar a criança de algo que ela gosta). Destacamos ainda a sobrecorrecção, uma prática indicada quando o comportamento da criança tem um claro impacto negativo nos outros ou no meio envolvente.

É uma estratégia que consiste, não apenas em repor a situação da forma mais próxima que ela estava anteriormente mas, também, compensar o outro ou o meio pelos danos causados. Vamos imaginar que uma criança partiu o lápis do colega. Dar-lhe um lápis novo seria apenas corrigir a situação, pelo que a criança deverá ainda, por exemplo, arrumar-lhe a mesa da sala de aula durante uma semana (sobrecorrigir), como forma de o compensar de ter ficado sem o seu lápis.

De forma paralela, todas estas estratégias devem ser acompanhadas de uma explicação e reflexão sobre o sucedido (as chamadas práticas indutivas), ajudando a criança a perceber o certo e o errado, bem como o impacto dos seus comportamentos nos outros. Desta forma, potenciamos o desenvolvimento da capacidade de descentração e de empatia.

Em jeito de conclusão, penso que podemos dizer com segurança que não precisamos das palmadas para nada. As palmadas magoam, por fora e por dentro, quem as leva e quem as dá. Geram sentimentos negativos de irritação e zanga, frustração e revolta. Não ensinam como ter um comportamento adequado. Em boa verdade, não ensinam nada. Por isso mesmo, para as palmadas, todas as horas são erradas.