Uma tenda, uma estufa, ioga e meditação: um jardim de infância na natureza

As tendas tipi vão dar apoio às atividades (DR)

Mentores da Keti Keta desejam vir a criar o primeiro jardim-de-infância português assente nos princípios da permacultura em contexto de natureza. Querem que o espaço seja aberto a toda a comunidade, bem como às famílias das crianças que possam vir a acolher.

Texto de Joana Capucho | Fotografia Ivo Tavares / ITStudio

Será preciso atravessar uma pequena floresta para lá chegar. De manhã, o dia começa com uma “assembleia matinal para ativar o corpo”. Após um círculo de partilha, seguem-se as atividades: leitura de histórias, visualização de seres vivos, passeios de bicicleta. “Todo o tipo de atividades que possam acontecer na natureza”. Depois do almoço partilhado, a sesta. Haverá, ainda, teatro, trabalhos manuais, a construção de abrigos na natureza. Sempre com o ioga, a meditação e a inteligência emocional presentes, e tendo como base os objetivos e as linhas orientadoras do Ministério da Educação para o pré-escolar.

Numa primeira fase, o serviço de apoio ao desenvolvimento da criança Keti Keta vai funcionar num terreno próximo da ria de Aveiro, em Esgueira, onde será instalada uma tenda do estilo tipi (formato usado pelos índios norte americanos) e uma estufa, que irá servir também de estrutura de apoio. “Estamos a dez metros da ria. Temos praias de junco, salinas… Um vasto ecossistema para explorar com zonas de agricultura, floresta e pântano”, conta ao DN Vanessa Aires, presidente da Keti Keta – Associação pela Cooperação com a Natureza, que agendou o projeto-piloto para o período entre maio e julho deste ano.

A ideia é criar um espaço onde as crianças se podem desenvolver física e psicologicamente em contacto direto com a natureza, acompanhadas por educadores, psicólogos, terapeutas da fala e outros técnicos especializados. Inspira-se nas estruturas das Escolas de Floresta e nas abordagens de autores como Carlos Neto e Reggio Emilia.”A minha função é motivar as crianças e ajudar cuidadores e educadores a motivar as crianças, ajudá-las a encontrarem-se a si mesmas. Queremos questionar o paradigma da educação que existe hoje em dia em Portugal. Estamos a perder conexões humanas, dos ecossistemas, a conexão com a natureza”, refere a psicóloga.

Trata-se de um modelo que pretende trabalhar “de dentro para fora”. Ou seja, “trabalhar a consciência, o estado de alerta, o que somos, de onde viemos, para onde queremos ir. Queremos ter crianças que serão adultos cuidadores, que conhecem e gostam da natureza e que, por isso, vão cuidar dela e protegê-la”. Ao capacitar as crianças, os mentores esperam contribuir para o desenvolvimento de “práticas éticas e sustentáveis, de cunho social, económico e ambiental”.

A Keti Keta (“menina menino”, em nepalês) vai começar por ser um serviço de apoio ao desenvolvimento da criança, direcionado para a faixa dos 3 aos 6 anos, mas com a possibilidade de integrar outras idades. Funcionará de segunda a sexta-feira, durante todo o dia, não estando previsto qualquer encerramento para férias. Além das atividades direcionadas para as crianças, será um espaço aberto à comunidade e às famílias beneficiárias, para os quais serão promovidas ações de sensibilização, experiências e formação nas mais variadas áreas de expressão do ser humano e da natureza. Serão convidados, por exemplo, a experimentar ioga e mindfulness, para perceberem as metodologias usadas com os mais novos.

Segundo Vanessa Aires, a equipa multidisciplinar de profissionais vem de três grandes áreas de ação: a pedagogia, a arquitetura e o design em permacultura (cultura que procura cultivar através de métodos sustentáveis do ponto de vista ambiental, social e financeiro). “Temos de construir do zero todas as estruturas e infraestruturas que vamos ter e para isso prevemos técnicas de construção naturais, ecológicas e sustentáveis. Sonhamos vir a ser o primeiro jardim-de-infância em Portugal baseado nos princípios da permacultura em contexto de natureza”, revela.

Do Nepal para Aveiro

Licenciada em Psicologia, Vanessa Aires, de 30 anos, teve a ideia quando se encontrava a fazer voluntariado numa casa de acolhimento para crianças, no Nepal, depois de uma experiência em Itália. “Andei pelo mundo a fazer trabalho fora da área, a conhecer novas cultura”, recorda. A viver numa zona isolada, a 500 quilómetros de Katmandu, a capital do Nepal, Vanessa sentiu-se acolhida. “E percebi a conexão que aquele povo tem com a natureza. Apesar de terem um modelo de escola americano, estão muito conectados com a natureza. Há muito espírito de entreajuda, simpatia, inclusão, conexão com os ritmos da natureza“, sublinha.

Foi nessa altura que começou a pensar o que podia dar à sua comunidade. Viu inúmeros vídeos, inspirou-se, e assim se tornou a “sonhadora principal” da Keti Keta. Partilhou a ideia com uma amiga que é educadora de infância e, recorda, começaram “a sonhar juntas”. “Nasceu, portanto, do meu percurso e do contacto que tive com este mundo, que é presente, mas costuma ser visto como do passado”, indica.

Há projetos semelhantes em vários pontos do país, como a Casa da Floresta Verdes Anos, em São Domingos de Benfica, entre outras. “Alguns têm infraestruturas muito fixas e pouco espaço exterior, outros têm modelos educativos fechados. Nós vamos beber um pouco a todos os modelos, mas o nosso é mesmo a natureza. Será quase um jardim comunitário“, frisa Vanessa.