Vai uma corrida? Mas ponham no Facebook. Se não, as calorias gastas não contam

– Vou começar a correr.
– Tu? Mas tu detestas correr.
– Não detesto. Não gosto muito, mas não detesto.
– Detestas, detestas. Ainda há dias disseste isso à tua irmã, que eu ouvi. Estavas com ela ao telefone a dizer que não percebias como é que ela corria todos os dias.
– Mas tu é que sabes o que eu detesto?
– Eu lembro-me de te ouvir. E não foi por o dizeres na semana passada. Nunca gostaste de fazer exercício.
– Eu fazia ginástica na escola.
– Pois fazias. E detestavas. Eu sou teu marido, sei es­tas coisas, lembras-te?
– Não me chateies. Já meti na cabeça que vou come­çar a correr. Já comprei uns ténis e tudo.
– Compraste uns ténis? Quando?!
– Hoje. Decidi e fui às compras à hora de almoço.
– Boa, acho que fazes bem. Mas compraste uns baratos, certo? Vais fartar-te depressa e depois ficas irritada por­que gastaste dinheiro.
– És uma grande motivação, tu. Obrigadinha.
– Só digo isto porque estou a estranhar essa decisão de última hora. Agora de repente, vais correr. Fico con­tente, mas acho estranho. É só isso.
– Ando a pensar nisto há uns tempos. Não é de ago­ra. Estou a ficar gorda, tenho de fazer alguma coisa.
– Ok.
– Ok o quê?
– Ok, já percebi porque é que vais começar a correr.
– Mas estás a dizer que eu estou gorda?
– Não estou nada. Tu é que disseste que estás gorda.
–E tu concordaste.
– Eu não disse nada.
– Disseste ok.
– Mas o que é que querias que eu dissesse? Estavas a clamar porque não te motivo e por­que gozo com a ideia de cor­reres. Quando eu digo ok e apoio, ficas chateada por­que estou a chamar-te gor­da. Decide-te.
– Podias vir comigo.
– Correr? Contigo? Eu corro no ginásio.
– Mas vinhas correr comigo. Para eu não ir sozinha. Não ias ao ginásio de manhã e vinhas correr comigo ao fim da tarde.
– À tarde? E quem é que fica com os miúdos?
– A minha mãe.
– Vamos deixar os miúdos à tua mãe de propósito?
– Não queres vir correr comigo? Ok, deixa. Não preci­so de ti para nada. Eu vou sozinha, obrigada.
– Espera lá. Não é nada disso. Estou só a pensar na lo­gística. Então e onde é que queres correr?
– Um sítio qualquer perto. Logo se vê.
– Não convém irmos para longe, por causa do jantar.
– Eu amanhã não janto.
– Não jantas?
– Não. Vou começar a fazer dieta. É a minha decisão de março. Correr e fazer dieta. Para chegar ao verão em condições.
– Vais fazer outra dieta? E isso não inclui jantares?
– Esta é diferente. Uma colega minha está a fazer e já perdeu três quilos. Uns dias janta, outros não.
– Quando é que ela começou?
– No ano passado. Olha, outra coisa: ensina-me lá a mexer aqui nesta aplicação das corridas no telemóvel.
– Não me digas que vais ser daquelas que espetam tudo no Facebook. Com os quilómetros e o mapa do percurso.
– Claro. Quero mostrar isso. Então mas eu vou come­çar a correr e não digo a ninguém?
– E isso é muito importante, claro… Que as pessoas saibam. Aliás, nem vale a pena fazeres dieta e corre­res, se não puderes pôr no Facebook, não é? Não te es­queças de tirar uma fotografia dos pés, também.
– Já pus. Não viste?
– Não reparei.
– Pois. É o que eu digo: tu não reparas muito em mim. Nem no meu Facebook. Como é que tu havias de ver que eu estava a ficar gorda.
– Eu não…
– Shhh. Não te atrevas a concordar…

[Publicado originalmente na edição de 15 de março de 2015]