Vai uma sandes de fiambre?

A Organização das Nações Unidas indica que a pecuária mundial gera cerca de vinte por cento das emissões de gases com efeito de estufa. Paralelamente, os transporte movidos a combustíveis fósseis produzem cerca de 13 por cento das emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global. Então porque será que se fala tanto da necessidade de reduzir o consumo de combustíveis fósseis e tão pouco sobre o consumo de carne?

Neste contexto, faz sentido questionar se os impactos negativos da carne nas sociedades se limitam ao efeito poluente associado à sua produção. Em outubro de 2015, um grupo dos mais reputados investigadores avaliou o impacto do consumo de carne vermelha e carne processada na saúde. O termo «carne processada» refere-se a carne que foi transformada através de salga, cura, fermentação, fumo ou outros processos.

Um grupo de cientistas avaliou mais de 800 estudos que investigaram o impacto do consumo de carne vermelha ou processada na incidência de diferentes tipos de cancro

O processamento da carne tem como objetivo aumentar a sua aceitação pelo consumidor. Aumenta a sua «vida de prateleira» e torna o seu transporte e armazenamento mais práticos. Hambúrgueres, enchidos, fiambres, caldos de carne. A carne processada está bem presente na dieta dos portugueses.

O grupo de cientistas avaliou mais de 800 estudos que investigaram o impacto do consumo de carne vermelha ou processada na incidência de diferentes tipos de cancro.

Associações positivas entre o surgimento do cancro colorretal e o consumo de carne processada foram relatadas em 12 dos 18 estudos considerados, incluindo estudos realizados na Europa, no Japão e nos EUA.

Adicionalmente, concluiu-se que a ingestão diária de 50 gramas de carne processada aumenta a probabilidade de desenvolver cancro colorretal em cerca de 18 por cento. Em Portugal, um em cada dez adolescentes ultrapassa esta quantidade de ingestão diária.

Já na generalidade da população os consumidores do sexo masculino são aqueles que se aproximam mais dessa quantidade de risco, ingerindo, em media, 48,7 gramas face aos 50 gramas estudados.

Também foram confirmadas associações positivas entre consumo de carne processada e o cancro do estômago. Dificilmente tantas associações aconteceriam por mero acaso ou coincidência.3

Hoje, muitos são aqueles que defendem que os alimentos não devem ser demonizados. Mas, de facto, para qualquer profissional de saúde cuidadoso será difícil defender o consumo de um produto considerado cancerígeno

Por isso, o estudo publicado na prestigiada revista científica The Lancet classificou o consumo de carne processada como «cancerígeno para humanos». Não tardou até que a própria Organização Mundial de Saúde atribuísse a classificação de agente cancerígeno de primeiro grau a este tipo de alimentos.

Hoje, muitos são aqueles que defendem que os alimentos não devem ser demonizados. Mas, de facto, para qualquer profissional de saúde cuidadoso será difícil defender o consumo de um produto considerado cancerígeno. Porque 50 gramas de carne processada equivalem a cerca de três fatias de fiambre, da próxima vez que preparar a sua sandes mista reduza a quantidade. Faça-o pela sua saúde!

Para os mais céticos, fica o desafio de ver um qualquer vídeo ilustrativo do processo de fabrico industrial de produtos de carne processada, como fiambre, por exemplo. Existem inúmeros disponíveis no YouTube. Como ficará o seu apetite depois disso?