Sexualidade: é preciso chamar as coisas pelos nomes

Young woman thinking in front of blackboard

Chamar as Coisas Pelos Nomes, da psicóloga Vânia Beliz, foi lançado recentemente e procura esclarecer pais e filhos sobre como e quando falar de sexualidade. Só chamando as coisas pelos nomes, diz. E explica como nesta entrevista.

Entrevista de Alexandra Pedro | Fotografia iStock e D.R.

Chamar as Coisas Pelos Nomes – Como e quando falar sobre sexualidade é o mais recente livro publicado pela psicóloga clínica e da saúde Vânia Beliz. Mestre em Sexologia e doutorada em Estudo da Criança na especialidade de Saúde Infantil, a especialista esclarece uma série de conceitos que acredita que ainda não são clarificados da melhor forma.

Desde logo, frisa, pelo significado que se dá à palavra sexualidade. «Mais do que uma palavra que nem sempre compreendemos bem, é, isso sim, uma fatia fundamental da vida, que não deve ser ignorada por pudor, desconhecimento ou medo. É uma parte de nós que precisa de ser falada abertamente», lê-se no livro.

Além de estratégias para falar com os filhos sobre sexualidade, Vânia Beliz chega a temas tão delicados como a sexualidade na deficiência, a homossexualidade ou a pornografia.

Em entrevista à DN Life, a psicóloga explica porque decidiu abordar estes temas e quais são as principais dúvidas que persistem entre pais e filhos.

Vânia Beliz é mestre em Sexologia e doutorada em Estudo da Criança na especialidade de Saúde Infantil

A edição do livro Chamar as Coisas Pelos Nomes deve-se à necessidade de esclarecer os pais (e filhos) sobre a melhor forma de abordar o tema da sexualidade?
Falar de sexualidade não tem sido fácil e nem sempre é confortável para as famílias. Apesar de compreenderem a importância de alguns temas, muitas famílias ainda associam sexualidade a sexo e a genitalidade [relacionado com órgãos genitais].

Ainda é um tema tabu nas famílias?
Falar de temas que envolvam genitais, práticas sexuais ou puberdade e adolescência são enormes desafios. Numa sociedade em mudança e onde tudo é extremamente «sexualizado» e «erotizado», é importante sensibilizar as famílias para o bem-estar e saúde sexual. E isso começa desde o nascimento com as primeiras relações e estabelecimento de vínculos até à puberdade e adolescência.

Quais são os principais conselhos que tem a dar aos pais nesta matéria?
Os pais devem compreender que mesmo que não falem diretamente estão a comunicar pelos seus comportamentos. A forma como se relacionam, como dividem tarefas, tudo isto é sexualidade. Por exemplo, aos dois anos a criança começa a ter curiosidade pelo corpo e a forma como as famílias estabelecem todas estas relações de toque e cuidado já são formas de abordar o corpo sexuado.

Se a questão não for fácil de responder – seja porque não estão num lugar tranquilo ou porque simplesmente precisam de se recompor da surpresa – os pais devem comprometer-se a voltar ao tema logo que possível

E quando surgem as primeiras perguntas sobre sexo?
Devem tentar compreender, sem reprimir, de onde surgiu a dúvida, devem tentar perceber o que sabe a criança para elaborarem uma resposta adequada e, por fim, perceber se a criança entendeu a explicação. Se a questão não for fácil de responder – seja porque não estão num lugar tranquilo ou porque simplesmente precisam de se recompor da surpresa – devem responder depois, com o compromisso de voltar ao tema logo que possível. Empurrar para o outro ou fazer de conta que não ouviu ou que ele ou ela irá esquecer-se não é uma boa estratégia.

As raparigas têm um entendimento diferente em relação aos rapazes sobre o que é a sexualidade?
As meninas são educadas de forma diferente para a sexualidade. As famílias temem a gravidez indesejada e, por isso, abordam a responsabilidade da contraceção como se fosse exclusiva das meninas. As raparigas ainda são educadas para as emoções e afetos, enquanto aos meninos é-lhes dito para não chorar. Estas narrativas prejudicam as crianças e condicionam as suas relações.

As raparigas colocam muitas questões relacionadas com contraceção e os rapazes sobre desempenho sexual

Quais são as dúvidas mais frequentes entre os jovens?
As raparigas colocam muitas questões relacionadas com contraceção e os rapazes sobre desempenho. Elas preocupam-se mais na puberdade, com o surgimento da menarca (primeira menstruação), as mudanças do corpo – muito pressionadas pelas questões da estética feminina. Eles estão ficam mais focados no pénis – tamanho e aspeto – e querem melhorar o desempenho para terem e darem mais prazer.

Elas não põem questões sobre sexo?
As raparigas ainda não apresentam muitas questões relacionadas com o prazer, ainda que muitas digam não conseguir ter orgasmos.

Pode dizer-se que as crianças tendem a replicar comportamentos dos pais com os amigos e namoradas/os?
Alguns. Nota-se, por exemplo, nos comportamentos de género. Há crianças que acham que as mães é que sabem limpar a cozinha e que os pais são melhores a arranjar coisas. Que as mulheres leem revistas e que os homens leem jornais. Há muitos estereótipos que surgem na infância e que são espelho do que observam na família.

Quais são os temas mais complexos em relação à sexualidade para os pais?
As questões das primeiras estimulações, primeiras relações sexuais, a orientação sexual e a puberdade e adolescência na deficiência.

A homossexualidade continua a ser um dos temas mais difíceis de abordar para os pais

A homossexualidade continua a ser uma das principais causas de suicídio entre os jovens.
Este é um problema grave e muito ignorado. Somos educados para sermos homens ou mulheres e heterossexuais e muitos não se identificaram com esta realidade. No meu livro dou referência de algumas entidades nacionais que podem ajudar as famílias mas o mais importante é que se compreenda que não escolhemos ser heterossexuais ou homossexuais e que não é pela forma como brincamos e com quem nos relacionamos que influenciamos a nossa orientação.

O que temem as famílias?
Acredito que muitas famílias temam que os seus filhos sofram, por acharem que a sociedade ainda é muito homofóbica. Contudo, o apoio familiar é muito importante. Nada justifica que se abandone os filhos só porque amam uma pessoa do mesmo sexo.

Como ainda achamos que sexualidade é sexo, opta-se simplesmente por pedir aos profissionais da saúde para irem às escolas falar de contraceção

As escolas portuguesas estão preparadas para dar educação sexual a crianças e jovens?
Existe uma lei que não é cumprida em muitas escolas. Educar para a sexualidade não é um assunto para o professor de biologia ou de ciências, é um tema transversal. Podemos trabalhar direitos das mulheres e homens nas disciplinas de Português ou História. Ou abordar a temática da menstruação num projeto sobre o meio ambiente, de forma a sensibilizar para a redução do uso dos pensos, por exemplo. Mas como ainda se considera que sexualidade é sexo, opta-se simplesmente por pedir aos profissionais da saúde para irem às escolas falar de contraceção.

O que há a melhorar?
Formar desde cedo os profissionais da educação, educadores de infância, professores. Melhorar a comunicação em sexualidade na saúde. Um vocabulário demasiado técnico não chega às crianças e jovens. E aceitar que educar para a sexualidade não vai contra os valores familiares mas sim ao encontro dos direitos sexuais de todos.

Chamar as Coisas Pelos Nomes é o mais recente livro de Vânia Beliz. Ponto quê? é outro dos livros da sua autoria