Vasco Prazeres: “Os homens, como pais, têm direito a ser acarinhados pelos serviços de saúde”

Pela primeira vez em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde, de forma integrada, vai prestar mais apoio aos homens para que estes sejam melhores pais, mais presentes e mais sensibilizados para a partilha de tarefas no cuidado e educação dos filhos. O projeto-piloto da Iniciativa Mobilizadora da Paternidade Envolvida e Cuidadora (IMPEC) foi lançado no início deste mês. “É a primeira vez, de forma sistematizada, que uma medida destas se aplica num perspetiva nacional”, diz o médico Vasco Prazeres, responsável pelo projeto e coordenador do Núcleo sobre Género e Equidade em Saúde da DGS.

Entrevista de Paulo Farinha
Fotografias de Álvaro Isidoro/Global Imagens

A Iniciativa Mobilizadora da Paternidade Envolvida e Cuidadora (IMPEC) visa sensibilizar e alertar para a partilha de tarefas dos homens na educação e cuidado dos filhos e vai arrancar com um projeto-piloto que foi apresentado no início de julho. Porque entenderam que era necessário levar a cabo uma ação destas?
A Direção-Geral da Saúde entendeu que não bastava tentar importar um modelo que tivesse sido concretizado noutro país. Há que tentar perceber na realidade nacional aquilo que é possível desenvolver neste domínio. A ideia é que venha a ter dimensão nacional, no âmbito do Serviço Nacional de Saúde.

Quando falamos desta iniciativa, estamos a falar de um problema de base que é desigualdade de género na saúde, certo? Essa é a questão principal aqui. Como é que nasceu esta ideia para lidar com isso?
A ideia surgiu há alguns anos. Os meus trabalhos em relação às questões das desigualdades de género (que se sentem em várias áreas e na saúde também) sempre estiveram muito focados naquilo que penaliza as mulheres. Historicamente é assim. As questões ligadas à saúde sexual, à reprodução, ao exercício da parentalidade têm estado tradicionalmente focadas nas mulheres. Há um contexto histórico e cultural que aponta para isso. As mulheres têm aquele mandato social ainda tradicional…

De serem as cuidadoras…?
De serem as cuidadoras, as responsáveis. Mas com as transformações sociais que têm acontecido a diferentes níveis – nomeadamente com outro tipo de protagonismo das mulheres na sociedade –, elas deixaram de ter exclusivamente esse mandado de tratar dos filhos e passaram a ter outro tipo de intervenção, também fruto de outros desenvolvimentos sociais. Os homens passaram a estar muito mais responsabilizados também por outras tarefas que há umas décadas atrás não tinham. Digamos que não fazia parte do seu pacote de responsabilidades. Como em tantos outros setores, historicamente não estavam preparados para essas tarefas. Durante gerações nunca foram preparados – ao contrário daquilo que sempre aconteceu com as mulheres. A partir de certa altura achei que seria possível darmos uma ajuda niso, porque havia – há! – uma margem de manobra enorme nos serviços de saúde para desenvolverem outro tipo de apoio e de suporte aos homens. Não é apenas dizer que eles agora também são responsáveis por um conjunto de atividades, sem lhes proporcionar apoio nesse tipo de tarefas. Basicamente, a ideia foi esta.

“As questões ligadas à saúde sexual, à reprodução, ao exercício da parentalidade têm estado tradicionalmente focadas nas mulheres. Há um contexto histórico e cultural que aponta para isso.”

Então, não se trata “apenas” de o Serviço Nacional de Saúde prestar esse apoio à população, mas também virar-se para dentro, para dotar os seus profissionais de algumas valências – ou ajuda-los a adotar alguns comportamentos diferentes – para ajudarem a essa paternidade envolvida? Ou seja, não é só consciencializar os pais, é também consciencializar os serviços?
Eu diria que são ambas as coisas. Historicamente, a Direção-Geral de Saúde trabalha para as populações. Mas os primeiros interlocutores – exceto naquilo que diz respeito a campanhas e a à publicitação de orientações para o público, etc – são os profissionais de saúde. Muitos dos programas de saúde focam-se naquilo que é o desempenho dos profissionais, na boa prática nas diferentes áreas de intervenção, no funcionamento mais adequado dos serviços de modo a propiciar essas boas práticas. Neste caso, o foco está principalmente nos serviços. Apoiar os serviços para que possam desenvolver esse tipo de apoio individualizado caso a caso e fomentar a literacia das populações.

E esse é um processo fácil de executar? Esse trabalho junto dos profissionais de saúde?
Sempre que a Direção-geral de Saúde tenta introduzir lógicas de trabalho que até aí não estavam muito desenvolvidas nem eram do conhecimento público ou dos próprios profissionais, é preciso intervir em diferentes frentes. Quer no que diz respeito à cultura que existe em cada uma das instituições que depois vão ser responsáveis pelo desenvolvimento de determinada ação, quer no que diz respeito às próprias representações que os profissionais de saúde têm sobre um conjunto de fenómenos, acerca dos quais não tiveram formação pré-graduada – nem têm sido muito treinados e habilitados a lidar com essas novas realidades. Portanto, aqui há um papel pedagógico, a par de um papel de fomento de mudanças organizacionais que permitam depois outro tipo de exercício de boa prática.

Este projeto-piloto, um protocolo entre a Direção-Geral de Saúde, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo e o Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Ocidental e Oeiras (onde será testado), tem a duração de quanto tempo?
Em princípio será até ao final de 2020.

E depois disso esperam tirar conclusões e implementar medidas no terreno?
Este projeto-piloto, como o próprio nome indica, servirá para nos orientar. Depois sim, gradualmente, começaremos a disseminar no Serviço Nacional de Saúde as lógicas de boas práticas de fomento da paternidade cuidadora.

“O foco está principalmente nos serviços. Apoiar os serviços para que possam desenvolver esse tipo de apoio – personalizado e individualizado caso a caso e fomento da literacia das populações. “

Quanto tempo acha que uma coisa destas dimensões e com esta envergadura demora até ser implementado em todo o Serviço Nacional de Saúde? Estamos a falar de toda a rede dos cuidados de saúde primários.
Repare: a cultura das instituições e as lógicas de trabalho dos profissionais não são imunes àquilo que é a sociedade em geral. E o que nós verificamos nos dias que correm é que há um envolvimento gradual dos homens nas tarefas do cuidar e na responsabilização pela sua própria reprodução. Só que no tecido social isto manifesta-se de forma muito assimétrica. Digamos que não é uma vaga de fundo e agora todos os homens pretendem estar muito mais envolvidos e pretendem ser apoiados…

Não. Nem todos querem, de facto.
Para muitos homens, as tarefas do cuidar e de tratar da criança são das mulheres e não se querem envolver. Militantemente, têm uma atitude bastante conservadora em relação a isto. ”A minha mãe é que tratou de mim e eu só via o meu pai à noite, a ler o jornal e a descansar do seu trabalho”. Para muitos homens, o pai só entrava em cena “quando a minha mãe não tinha mão em mim”, por exemplo. É uma atitude que temos de respeitar mas, de acordo com os parâmetros atuais, não será a mais correta, apenas corresponde àquilo que são as desigualdades de género tradicionais. Depois haverá outros homens que, não estando de acordo com a ideia de que o seu papel como pais seja apenas o de trabalhar para o sustento dos filhos e ser a autoridade máxima dentro de casa, pretendem envolver-se mais. Mas não têm uma motivação específica que lhes permita cortar com essa tradição e lutar contra aquilo que a própria família acha que deve ser. E têm alguma dificuldade e gostariam de ser mais apoiados nessa tentativa de modificação. Depois há ainda outro grupo, dos que militantemente querem envolver-se mais e precisam de ter mais apoios. Mas para isso vão ao Doutor Google, porque não sabem o que se espera deles. Não têm essa tradição familiar. E nesses casos eu considero que o papel dos serviços de saúde tem de corresponder mais àquilo que são as solicitações das pessoas. Portanto, há uma diversidade enorme de formas de encarar a paternidade. E o SNS tem de encontrar respostas para elas.

É essa a ambição desta iniciativa? Que o Serviço Nacional de Saúde possa desenvolver esse trabalho de incentivo para os pais que precisam dele?
De incentivo e de apoio. Primeiro, de bom acolhimento. Acolher bem os diferentes grupos de pais. O Serviço Nacional de Saúde não tem que fazer distinção. Os serviços têm de ter uma política de incentivo à paternidade envolvida e cuidadora que deve ser cega. Não tem que estar a olhar para quem são os homens…

“Há margem de manobra nos serviços de saúde para desenvolverem mais suporte aos homens”, diz o médico Vasco Prazeres. “Não basta dizer que eles agora também são responsáveis por um conjunto de atividades, sem lhes proporcionar apoio nessas tarefas.”

Que medidas concretas têm previstas para que os profissionais de saúde possam fomentar essa paternidade envolvida e cuidadora?
Haverá uma tomada gradual de medidas a incidir sobre a própria instituição. Para tornar a acessibilidade aos serviços mais marcada para os homens, para que eles se sintam mais bem-vindos. É preciso melhorar o ambiente dos serviços, difundir informação apelativa para os homens e preparar os profissionais para abordarem a paternidade de forma mais sistematizada – não só junto dos homens mas também junto das mulheres, para que estas possam assumir que cuidar de um filho é uma co-atividade deles. E vamos também produzir informação e documentação técnica.

Falava, no início da entrevista, da dimensão nacional desta iniciativa. É a primeira vez que se vai fazer isto no Serviço Nacional de Saúde? Pensar nas questões da paternidade envolvida e cuidadora de forma central, nacional, integrada?
Eu diria que sim. Com uma perspetiva nacional, é. Não quero desvirtuar experiências pontuais que tenham sido feitas, mas de forma sistematizada é a primeira vez. Trata-se de um tipo de intervenção que eu diria – com alguma petulância, se quiser – que é inovador no contexto nacional. E é interessante, porque esta iniciativa faz parte de um programa político para fomentar a conciliação da vida pessoal, familiar…

… e profissional? Está a falar do Três em Linha?
Sim. É uma das medidas que está inscrita nesse programa. E Inscreve-se, também, nitidamente, naquilo que é o mandato da Direção-geral da Saúde e a Estratégia Nacional para a Igualdade, em diferentes aspetos.

A Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, que tem entre as suas medidas a Estratégia de Saúde para as Pessoas LGBTI, coordenada pelo núcleo de que o senhor é responsável [Núcleo sobre Género e Equidade em Saúde]. Fazia todo o sentido que o IMPEC saísse deste gabinete também.
Sim, a estratégia LGBTI foi desenhada a partir daqui, também.

“É a primeira vez que se aplica uma medida destas de forma sistematizada. Trata-se de um tipo de intervenção inovadora no contexto nacional.”

Voltando à questão que lhe coloquei antes: salvaguardando os diferentes tipos de pais e a adaptação nas respostas por parte dos profissionais dos serviços, e tendo em conta que o projeto-piloto decorrerá até ao final de 2020 e depois haverá um tempo para o grupo desenvolver relatórios, quando é que acredita, então, que se pode aplicar a IMPEC em todo o SNS? E sei que estamos a fazer futurologia.
Voltou à pergunta de que eu tentei fugir [risos]. Eu acho que isto vai ser um processo gradual. E é capaz de não ser muito diferente daquilo que tem acontecido, por exemplo em relação à prevenção da violência: prevenção de maus tratos a crianças e jovens e prevenção da violência em adultos. Isto é um processo que deve decorrer em cascata. A pior coisa que podemos fazer é determinar a constituição de equipas de trabalho de uma área de intervenção que, ao fim de um determinado tempo, tem que apresentar resultados. É preciso que este processo siga a lógica da velha máxima do Fernando Pessoa para a Coca-Cola.

“Primeiro estranha-se e depois entranha-se”?
Sim. Vai-se entranhando. É essa a ideia que pretendemos desenvolver. Este projeto-piloto não é completamente ortodoxo naquilo que costumam ser os projetos-piloto, onde temos um pacote que vamos testar, tentamos aplicá-lo e no final vê-se o que foi possível e o que não foi, fazemos uns acertos e chegamos a um produto final. Neste caso, essa lógica de trabalho tem que ser forçosamente diferente.

“Esta intervenção do pai no cuidado do filho é vantajosa para a criança, para a relação do casal, para a prevenção de violência doméstica e para o auto-cuidado do homem.”

Porquê?
Porque estamos a caminhar por terrenos que não conhecemos ao certo. Não sabemos o que vamos encontrar. Qual é a sucessão de acontecimentos que pode facilitar? O que pode criar entraves e anticorpos em determinadas áreas? Vamos ter que trabalhar dentro da lógica de funcionamento de uma determinada entidade, neste caso um ACES, vamos ver qual a estrutura física para isso, qual a maior ou menor receptividade dos homens em relação ao assunto, etc. E teremos de ir avaliando.

Ou seja, não é possível saber quanto tempo demorará tudo isto a ser implementado no SNS a um nível geral?
Não sou capaz de lhe dizer quanto tempo. Este projeto-piloto tem um documento orientador do trabalho que vamos desenvolver e esse documento ainda não está fechado. Não é um pacote de ações que têm que ser desenvolvidas e daqui a um ano e meio vamos ver se estão todas. Há coisas que sabemos que têm de ser feitas, mas há outras que ainda estão em aberto e que vão sendo consensualizadas – até com a equipa de coordenação dentro do agrupamento. O projeto-piloto foi apresentado no início do mês mas já estamos a trabalhar este tema há mais tempo. E no final, sim, teremos um caderno de encargos para outros ACES que queiram constituir-se comoES-IMPEC (Entidade de Saúde com Iniciativa Mobilizadora da Paternidade Envolvida e Cuidadora).

A partir desse caderno de encargos que vai ser elaborado, as entidades candidatam-se?
Sim. Com um caderno já fechado, depois candidatam-se. Teremos de criar mecanismos de avaliação desse desempenho. Claro que isto não significa que, independentemente de quererem constituir-se como unidades certificadas, qualquer unidade possa ir implementando boas práticas nesta matéria.

“Há coisas que sabemos que têm de ser feitas, outras ainda estão em aberto e vão sendo consensualizadas – até com a equipa de coordenação dentro do agrupamento. O projeto-piloto foi apresentado no início do mês mas já estamos a trabalhar este tema há mais tempo. No final teremos um caderno de encargos para outros ACES.”

Somos um país pequeno mas com realidades distintas. À medida que se forem implementando medidas e práticas no terreno é possível que, de norte a sul, haja diferentes reações – e diferentes resistências. Contaram com isso? É expectável?
Sim, claro. E isto não tem a ver só com realidades geográficas. Tem a ver também com as próprias dinâmicas de trabalho nos serviços. Tem a ver com coisas que parecem à primeira vista não ter grande influência, mas que, do meu ponto de vista, até têm. Não é por acaso que nesta equipa de coordenação temos dois homens e uma mulher [um médico, um psicólogo e uma enfermeira]. Um grupo maioritariamente de homens para acompanhar temas desta natureza é coisa raríssima. Justamente pelos ditames do género, sabemos que é mais difícil chegar à população masculina através de profissionais de saúde exclusivamente do sexo feminino. Se houver referências identitárias do sexo masculino, que permitam estabelecer diálogo entre homens, é melhor. Às vezes, simbolicamente, é importante ser um homem a dizer algumas coisas. São homens a ser tratados por homens (a pegar em assuntos de homens) em áreas tradicionalmente das mulheres. Isto faz a diferença em termos de interlocução.

O que acha que está mal nos cuidados de saúde primários e importa melhorar, para fomentar essa paternidade inclusiva e cuidadora?
Eu não diria “o que está mal”, eu diria “o que pode ser melhorado”. Há coisas simples que às vezes nos podem passar ao lado, como a cor das salas de espera, por exemplo. Ou a sinalética. Porque é que um cartaz sobre planeamento familiar só tem mulheres? A saúde reprodutiva e as indicações de cuidados de puericultura sempre foram identificados com mulheres. Não faz sentido. E porque é que a sinalética a indicar o fraldário só tem mulheres? Uma pessoa de saia debruçada sobre uma criança. Isso é simbólico e faz a diferença. Esta coisas “não matam, mas moem”.

Já há muitos locais públicos onde isso se aplica. Centros comerciais, estações de serviço… Nas unidades de saúde do SNS os fraldários estão associados a imagens femininas?
Não temos esse levantamento, mas estou convencido que, em muitas unidades, o símbolo da fralda ainda não estará disponível para os homens. Não estou a dizer que é na casa de banho dos homens, é no espaço comum. São sinais importantes. E dizem: “Isto é para homens também”.

A comunicação continua a estar muito orientada para mulheres.
Sim. E entramos no domínio dos comportamentos também. Para muitos profissionais de saúde, numa consulta com um homem, uma mulher e um recém-nascido à frente deles, o interlocutor imediato é a mãe, não o pai. Aqui há uns meses um casal conhecido, jovens, falava-me exatamente disso. “Nós não queremos mais ir à consulta daquela médica.” Falavam-me de uma profissional de saúde que nem sequer é do SNS. A mulher daquele casal é menos expansiva, menos interventiva, mais calada. E o marido sente-se mais à vontade para falar. Foram à consulta, era ele que fazia as perguntas dos dois…

“Um pai mais envolvido cuida mais da sua própria saúde”, diz Vasco Prazeres, coordenador do Núcleo sobre Género e Equidade em Saúde da DGS.

… mas era para a mãe que a médica se dirigia a falar.
Exato. O pai fazia as perguntas, a médica respondia para a mãe. E isto acontece muitas vezes. Em reuniões científicas também. O discurso sobre os cuidados ao bebé está cheio de “a mãe deve”, “a mãe faz”. A mãe! Isto depende muito do élan que se cria e destes aspetos simbólicos que podem parecer coisas de somenos importância, mas que depois não são.

Acha que uma iniciativa como a IMPEC já vem tarde? Já gostaria de ter implementado esta ideia antes ou não havia condições para isso?
Não sei. Quando lançamos as coisas pensamos sempre que já podia ter acontecido. As coisas mudaram muito nas últimas décadas. Olhe o caso da licença de paternidade, por exemplo: disparou nos últimos anos. Se olharmos para a evolução no envolvimento dos homens nestes aspetos, eu diria que não vamos cedo. Já podíamos ter começado. Mas ainda bem que estamos a arrancar agora.

A sociedade e os comportamentos nesta matéria mudaram muito.
Embora o tempo diário utilizado pelas mulheres nas atividades domésticas e nas atividades do cuidar seja muitíssimo superior ao dos homens – há uma décalageenorme –, tendencialmente eles vão-se aproximando mais. Há aqui um movimento social em direção ao nivelamento dos deveres e dos direitos no exercício da paternidade. E eu gostava de salientar um aspeto que me parece importante: estamos a falar de um tipo de intervenção que trará benefícios para todo o sistema familiar. Para o crescimento e desenvolvimento da criança, que é apoiada também pelo pai, e para a própria relação do casal, que fica mais equilibrada. Mas há também efeitos sobre a prevenção de violência doméstica (quanto mais envolvido estiver na paternidade, menor é a probabilidade de haver violência). E quanto mais um homem está envolvido no exercício da paternidade próxima e cuidadora, maior será a probabilidade de se auto cuidar em termos de saúde.

Isso é muito interessante.
Um pai mais envolvido cuida mais da sua saúde. Primeiro, porque ele próprio sente que precisa de estar em forma para cuidar do filho. Além disso, sente-se um modelo para o filho e, portanto, não vai fumar. Ou não o fará ao pé do filho, porque sabe que é um role model. Há cerca de um ano, a Organização Mundial da Saúde publicou pela primeira vez a estratégia para a saúde dos homens e um dos eixos era justamente o da autocuidado e o exercício da parentalidade como fatores favorecedores da saúde dos homens. Isto é muito importante para as relações familiares e para as relações pai-filho. A autodeterminação dos pais é um ponto essencial. “Eu sou pai, eu quero ser melhor pai. Eu tenho direito, enquanto homem, a ser acarinhado pelos serviços de saúde. É um direito meu!”. Isto não é apenas um veículo para melhores crianças e melhores relações. É um veículo para ser melhor homem. Eu já tenho feito algumas intervenções públicas a propósito disso e termino sempre com esta frase: “Ser pai cuidador é de homem”. Isst permite afirmar muita coisa ao mesmo tempo.

No limite estamos também a contribuir para tentar mudar o paradigma do homem que ajuda para o homem que faz?
Claro! É isso mesmo! O homem não é ajudante de mulher!

“Eu sou pai, quero ser melhor pai. tenho direito, enquanto homem, a ser acarinhado pelos serviços de saúde. Isto não é apenas um veículo para melhores crianças e melhores relações. É um veículo para ser melhor homem.”

No Agrupamento de Centros de Saúde de Lisboa Ocidental e Oeiras, todas as unidades são reconhecidas pela UNICEF como “amigos dos bebés”, pela promoção que fazem do aleitamento materno. Foi por isso que este foi o ACES escolhido para implementar o projeto-piloto?
Em grande parte foi por isso que a DGS convidou este ACES, através da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, para iniciar o IMPEC. Este ACES consegue facilmente identificar necessidades e mobilizar as diferentes unidades em torno de uma questão, que tem a ver com a melhoria da resposta. A UNICEF tem o projeto dos hospitais amigos dos bebés. E este foi o primeiro ACES que conseguiu ser um ACES amigo dos bebés. A promoção do aleitamento materno é um tema mais restrito, eventualmente, mas mobiliza muita coisa. E o aleitamento materno e o papel do aleitamento materno não se restringe à mulher.

Sim, O apoio do pai aqui pode ser essencial.
O pai pode facultar à criança leite materno. Se a mãe estiver a trabalhar e tiver retirado leite previamente e este estiver conservado no frigorífico, o pai pode dar-lhe por biberão. E quem tem filhos sabe o que nos primeiros tempos a amamentação pode exigir um grande esforço da parte da parte das mães. Os pais, além do suporte afetivo, podem “pôr a mão na massa”.

Dizia que este ACES consegue facilmente identificar necessidades e melhorar as respostas aos utentes…
As unidades deste ACES estão bem preparadas para introduzir focal points que depois vão ser dinamizadores das ações a desenvolver. Mas, basicamente, é uma entidade que tem já algum histórico de trabalhos inovadores no sentido da corresponsabilização, do envolvimento e de um ou outro tipo de suporte até às próprias crianças e jovens. Inicialmente havia a ideia de ter um projeto-piloto em cada Administração Regional de Saúde, mas isso era ingovernável em termos de acompanhamento, não valia a pena. Então, identificámos um núcleo de pessoas que dinamizam dentro do ACES e, que depois fazem as ligações a várias unidades. E, depois, há outro fator prático: este ACES está geograficamente perto da DGS, o que facilita bastante a questão. E há um apoio excelente do Conselho Clínico e da Direção Executiva. Sabe que os tempos de evolução e de maturação dependem muito do grau de atenção e de envolvimento que as pessoas têm. E da maior ou menor recusa a este tipo de mudanças. E é claro que isto representa um trabalho brutal para eles e vai ser complicado desenvolverem todos os mecanismos, além do que têm de fazer no dia a dia.

“Não levamos em linha de conta aquilo que é o género, do ponto de vista cultural e sociológico. E eu não tenho dúvidas que o género é, de facto, em termos sociais, um poderoso determinante da saúde.”

Que outros grandes projetos é que o núcleo sobre Género e Equidade em Saúde tem em mãos neste momento? Além da estratégia LGBTI.
Neste momento estamos a dar continuidade àquilo que tem sido o trabalho desenvolvido, a partir daqui e com pessoas de fora daqui, na coordenação da ação de saúde para crianças e jovens em risco. A Ação de Saúde sobre Género, Violência e Ciclo de Vida tem um “braço armado”, digamos assim, que são as equipas de prevenção da violência em adultos. Que cada vez mais entroncam um no outro e potenciam o trabalho neste domínio. Nos últimos dez anos passaram pelos Núcleos de Apoio a Crianças e Jovens em Risco mais de sessenta mil situações. Mais alguns milhares nas equipas de prevenção da violência em adultos, que são mais recentes. E, com tudo o que implica trabalhar nestas áreas, nomeadamente de ligação com outras entidades e com outras estruturas, tem sido um desafio ao longo destes últimos dez, onze anos. Ligado com isto, pertenço à equipa de análise retrospetiva dos homicídios em violência doméstica, coordenada pelo procurador Rui do Carmo. É outra das áreas nobres de atividade, porque envolve bastante os serviços de saúde. E estou a trabalhar um documento de referência para os cursos de preparação para o parto e parentalidade. Que se relaciona com a IMPEC, claro.

Qual é o principal problema de género e equidade em saúde que encontra atualmente no SNS?
O principal problema? É o facto de ainda termos uma visão muito incipiente sobre o impacto do género na saúde das pessoas. Tradicionalmente, toda a formação dos profissionais de saúde tem sido nesse sentido. Nós não temos olhado suficientemente para as diferenças entre homens e mulheres no domínio lato da Saúde e nos diferentes problemas de saúde. Regra geral, tendemos a homogeneizar a população sobre aquela designação dos utentes, das pessoas, dos doentes. E, ao fazê-lo, englobamos no mesmo número grupos que depois, se conseguirmos desagregar os dados por sexo, nos ajudam a perceber melhor as assimetrias que existem. Mas quando os analisamos a tentar entender estas diferenças, regra geral paramos na Biologia. Ou seja, não levamos em linha de conta aquilo que é o género, do ponto de vista cultural e sociológico.

Como por exemplo?
Os padrões comportamentais, a exposição a riscos, as condições socioeconómicas, o sítio onde se vive. Há um estudo fantástico do National Health Service [Reino Unido] feito há uns dez anos. Ao olharem para a Central Line do metro de Londres, que atravessa a cidade de uma ponta à outra, chegaram à conclusão que, por cada duas estações, andando do centro para a periferia, os homens tinham a esperança de vida diminuída em um ano ou dois. Portanto, aqui há um conjunto de determinantes sociais que obviamente condicionam isto. Somos avessos a cruzar as evidências científicas das ciências biomédicas com as evidências científicas das ciências sociais. Eu não tenho dúvidas que o género é, de facto, em termos sociais um poderoso determinante da saúde. Não apenas em termos biológicos. Não podemos olhar para o género em saúde apenas através das assimetrias biológicas.

Falta uma melhor recolha e um melhor tratamento de dados?
É a minha convicção. Um melhor levantamento e uma melhor interpretação. Em conjugação com as Ciências Sociais. Estamos a falar de determinantes que os profissionais de saúde, regra geral, não dominam e a própria investigação não domina. Eu acho que isso é o futuro. Um exemplo disso são as questões LGBTI: é preciso distinguir aquilo que é a determinante biológica daquilo que é a dinâmica social. E esta compatibilização, é muito difícil.

E por isso é que foi necessário criar um guia de boas práticas.
É o que estamos a tentar fazer.