Vestir crianças de manhã: não há mestrados para isso?

– Viste como foi a tua filha para a escola hoje?
– Hoje? Como é que ela foi para a escola?
– Não notaste nada de diferente?
– Não. Penteei-a, calcei-lhe as sandálias novas, ela agora não quer outra coisa, levou o chapéu… Não me digas que lhe vesti outra vez um vestido que estava para lavar. Foi de roupa suja?
– Não, não foi de roupa suja. Antes isso. Não é que fosse uma coisa boa ou normal, mas não foi o caso. Hoje não.
– Já falámos sobre isso. Só levou roupa suja das vezes em que não deixaste o que era para lavar dentro do cesto.
– Sim, claro. Das únicas duas vezes na vida que me esqueci de pôr roupa da miúda para lavar, tu resolveste vesti-la novamente no dia seguinte porque não soubeste ver se estava limpa ou suja.
– Vá, não vamos repisar o assunto. Não foi o caso hoje, pois não? Hoje foi de roupa lavada. Diz-me lá o que é que havia de mal hoje? Lembro-me de que até lhe pus protetor solar na cara.
– Protetor solar? Boa!
– Vês? Lembrei-me disso.
– Sim, sim, fizeste bem. Na cara estava protegida. E olha, nos braços também.
– Nos braços… Nos braços não pus.
– Ora aí está… chegaste onde eu queria. E porquê? Será porque os braços estavam tapados?
– Olha, pois é. O vestido era da mangas compridas, não era?
– Era. Era mesmo. E não achaste que lhe estava apertado?
– Custou um pouco a apertar os botões, mas nada de especial.
– Bom, ela continuava a respirar depois de apertares os botões, por isso se essa é a tua referência para ver se está apertado ou não, acredito que não te tenhas apercebido.
– Apercebido do quê?
– Que vestiste à tua filha de 2 anos roupa que ela não usa desde março. Não só porque já está crescida, mas porque estamos em julho e aquilo é de meia-estação. A miúda foi a assar para a creche.
– Que exagero. Podia ter calor, mas não ia a assar.
– Não. Foi só o suficiente para lhe mudarem a roupa assim que tu te foste embora. Felizmente tinham lá roupa de substituição fresca. Mas como é que tu não viste isso? Como é que não reparaste que ela ia ter calor? Isso é que me deixa espantada.
– Mas porque é que deixaste ali o vestido a jeito?
– O vestido estava ali para eu levar para uma colega minha que tem uma bebé e vai estar-lhe bom depois do verão. Esqueci-me.
– Mas se na creche repararam nisso, porque é que não me disseram nada?
– Porque saíste a correr. Deixaste a miúda e foste embora a correr para o trabalho. Disse-me a educadora dela quando a fui buscar.
– Estava com pressa, estava… Então se calhar é por isso que a vizinha disse aquilo.
– Qual vizinha? O que é que ela disse?
– De manhã encontrei a vizinha de baixo no elevador. Entrou, olhou para ela, olhou para mim e disse-me que nos dias em que tu sais mais cedo, se eu quisesse podia passar lá em casa com a miúda para ela ver se estava tudo bem.
– Ela disse isso? E o que é que tu respondeste?
– Eu achei que ela não era boa da cabeça por estar a dizer aquilo. Fiz um sorriso amarelo, agradeci educadamente e vim-me embora a pensar no que é que ela queria.
– A mulher a oferecer-se para a nossa filha não fazer figuras tristes e tu ainda ficas a pensar coisas. Mas porque é que tu não vestes o que eu te deixo ali preparado? Só falta deixar os ganchos escolhidos, mas isso tu sabes fazer. Sabes, não sabes?
– Não exageres.
– Amanhã escolho os ganchos.

[Publicado originalmente na edição de 3 de julho de 2016]