O vício dos jogos online: perder dinheiro e qualidade de vida

É difícil controlar a adrenalina que advém dos jogos online. Quanto maior a dependência, maior o desafio de parar. Neste ciclo vicioso, ganham-se dívidas e perde-se qualidade de vida. Os pais e familiares mais próximos podem ajudar a identificar os sinais.

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de Shutterstock

Não se lembra quando começou a usar a tecnologia com regularidade. Talvez tenha sido por altura do aparecimento do Facebook, há 13 anos. Hoje tem 27 e a sua atividade profissional, na área financeira, obriga-o a usar a Internet diariamente. Agora, garante, de forma regrada. «As redes sociais, os e-mails, as notícias em sites. Tudo isso é obrigatório no meu dia-a-dia, mas não me considero dependente da internet.» Mas nem sempre foi assim. Luís (nome fictício) já foi muito dependente dos jogos online.

Tudo começou de forma natural. Ouvir música, ler notícias (sobretudo de futebol) eram as atividades mais frequentes, até porque a internet ainda era lenta e o acesso não tão facilitado como hoje. E não acedia em casa, mas em espaços públicos. «Não havia dependência, a geração era diferente e não havia tanta facilidade de aceder a um computador. Os próprios telemóveis não permitiam aceder à internet como hoje.»

Adrenalina. É do que mais sente falta quando não joga ou diminui a regularidade. «É preciso ser muito forte mentalmente para gerir esta questão e procurar algo que substitua o vício de forma saudável», diz Luís

Aos 19 anos, passou a aceder muito ao e-mail por imposição das aulas na faculdade. Pouco tempo depois, surgia o interesse pelo jogo online. «A publicidade a casas de apostas está praticamente em todas as páginas da internet, o que facilitou a descoberta.»

Cinco anos depois descobriu o que se viria a tornar uma dependência: o site de apostas Bwin. «Frequentava um bar com amigos e muito deles também começaram a jogar.» E o que começou por brincadeira tornou-se um caso sério. Apostava em jogos de futebol e jogava poker. E as coisas foram crescendo. Por vezes com vários jogos em simultâneo.

Adrenalina. É do que mais sente falta quando não joga ou diminui a regularidade. «É preciso ser muito forte mentalmente para gerir esta questão e procurar algo que substitua o vício de forma saudável.» Hoje joga menos até porque é seguido em psicoterapia. Os pais e a namorada aconselharam-no a procurar ajuda quando a situação se complicou e começaram a notar diferenças de comportamento quando Luís perdia as apostas.

«Passava demasiado tempo agarrado ao computador ou à internet. Perdi algum dinheiro e os meus familiares perceberam algumas mudanças de personalidade. Andava mais triste e rabugento. Eu próprio apercebia-me disso.» Quis então melhorar a vida e deixar de os preocupar.

«Apesar de nunca ter atingido limites monetários muito graves, passei por fases muito difíceis em que os reds [perda de dinheiro em apostas] não pareciam parar. Sinceramente, passei por diversas situações de fraqueza psicológica em que só me apercebia da minha atitude depois de perder um jogo.»

Apesar de os jogos online serem considerados um hobby para alguns jovens, a Organização Mundial da Saúde pode vir a considerar este tipo de vício como um distúrbio psiquiátrico.
Ao fim de um ano de insistência por parte da família, Luís procurou ajuda. Passou a ser seguido uma vez por semana em janeiro deste ano, na consulta de comportamentos e dependências online da clínica do ISPA, pela psicóloga clínica Ivone Patrão. Dois meses depois, começou a ter consultas quinzenais, incluindo intervenção em casal, para que a namorada o pudesse ajudar neste processo.

Para trás ficavam as apostas ao final do dia para aliviar o stress. E os problemas familiares e financeiros. «Achava que a situação estava controlada, mas as pessoas à volta estavam a sofrer. Obviamente que tive também alguns problemas monetários, mas nunca nada de grave, apenas apostei o que tinha.»

Luís prefere não revelar valores, mas era o suficiente para o preocupar. Abandonou o poker há dois anos mas ainda gosta de fazer apostas online. «Gosto de apostar e acompanhar o jogo. Sinto-me completo.»

Apesar de os jogos online serem considerados um hobby para alguns jovens, a Organização Mundial da Saúde pode vir a considerar este tipo de vício como um distúrbio psiquiátrico segundo uma proposta apresentada em julho deste ano num congresso mundial sobre o cérebro, realizado no Brasil, no sentido de rever a atual Classificação Internacional de Doenças.

E como se caracterizam, afinal, os jogadores patológicos? «São, na maioria, jovens que passam demasiado tempo de volta dos jogos em detrimento de outros interesses», diz Ivone Patrão, psicóloga clínica, terapeuta familiar, professora e investigadora no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA).

E de onde surge a dependência? Ivone Patrão considera que algumas crianças podem vir a ser os dependentes de amanhã, sobretudo se são recetivas à experiência.

«Esta passa a ser a sua atividade principal: basta terem acesso a um computador ou iPad para passarem os dias a jogar. Para quem retira prazer dos jogos, é muito difícil quebrar um ciclo. Os jogos online ativam as mesmas zonas de prazer que o consumo de drogas. Daí, segue-se a adrenalina, a excitação, o facto de se sentirem bem assim.Online, as coisas são mais fáceis, mais rápidas e muito disponíveis.» A autora do livroGeração Cordão (ed. Practor) sabe do que fala: dá consultas especializadas nesta temática desde 2009.

E de onde surge a dependência? Ivone Patrão considera que algumas crianças podem vir a ser os dependentes de amanhã, sobretudo se são recetivas à experiência. «São os que começam a aceder à internet mais cedo.

Se não houver coesão e suporte familiar nem supervisão, temos crianças dos 5 aos 8 anos a entrar no mundo virtual. Há um perfil de vulnerabilidade e de risco destes jovens que pode estar relacionado com o meio onde vivem mas também com as suas características de personalidade.»

Daqui ao ciclo vicioso vai um pequeno passo. «Deixam de ter hobbies, abdicam de estar com os amigos, não procuram atividades de lazer e faltam à escola. No caso dos mais velhos, o jogo pode mesmo roubar-lhes horas ao trabalho.»

Alguma sintomatologia pode alertar as famílias para a dependência, como «as alterações do sono e da alimentação – dormem muito ou pouco; comem demasiado ou de menos – menos concentração e desenvolvem irritabilidade. Em caso de comorbilidade, alguns destes dependentes apresentam traços de tristeza, ansiedade e depressão».

Luís procurou ajuda, motivado pelos pais e pela namorada. Por norma, Ivone Patrão recebe os primeiros pedidos pelos pais. «Há quem venha sozinho mas após muita insistência familiar. Temos consultas individuais, mas também com a família ou em casal, dependendo dos casos e sempre que se justifique.»

Depois é delineada uma estratégia de tratamento que, ao contrário do que se possa pensar, não passa pela abstinência total do jogo. «Não proibimos totalmente o paciente de jogar durante o tratamento, porque isso pode provocar o conflito do jovem com familiares e originar situações ainda mais complicadas.

No entanto, é pedido aos pacientes que assinem um termo de exclusão para deixarem de jogar por um período determinado de tempo [três, seis meses, um ano], ficando sem acesso às apostas online.

A intervenção é feita pela negociação: os pais têm de sair da zona da proibição e os jovens têm de abandonar a zona do excesso. Não é a proibir de jogar que vamos conseguir ter bons resultados. Os pais não estão 24 horas com eles, e os jovens acabam por conseguir jogar de uma forma ou de outra.» É assim estabelecido um contrato entre paciente, psicólogo ou especialista e familiares.

No entanto, é pedido aos pacientes que assinem um termo de exclusão para deixarem de jogar por um período determinado de tempo [três, seis meses, um ano], ficando sem acesso às apostas online. Destas consultas, faz parte o acordo de pagamento integral das dívidas, caso existam. A intervenção, mais uma vez, pode ser articulada com a família.

«Isto acontece sobretudo quando os jogadores têm dívidas. Alguns pacientes têm as contas bancárias controladas pelos familiares de forma a evitar que as dívidas se acumulem mais.»
Luís continua em consultas de psicoterapia, com uma frequência mensal. Para trás, fica a angústia na certeza de que o futuro trará outros hobbies e interesses.

Este artigo foi publicado originalmente em www.noticiasmagazine.pt.