“É difícil não seguir alguma tendência, nem que seja a de recusar tendências”

Seguir as tendências é uma estratégia de sobrevivência, dizem os cientistas. Comportamento adaptativo, radicado na necessidade de identificação e integração, tem sido estudado e manipulado ao longo da história. O psicólogo Vítor Rodrigues, autor de livros como Teoria Geral da Estupidez Humana ou O Consumista Heroico, explica o que está por detrás deste deixar-se ir.

Texto de Catarina Pires | Fotografia Paulo Alexandrino (Global Imagens)

Por que é que as pessoas seguem as tendências do momento?
Muitas pessoas procuram sentir que pertencem a grupos, sejam sociais, políticos, religiosos, artísticos, desportivos. Ao seguir tendências, transmitem a sua identificação com estes e manifestam, normalmente, acordo com os seus referenciais dos mesmos. Isso dá-lhes o conforto de sentirem um espírito de conjunto, de poderem acreditar que existe um corpo social que pode aceitá-las, integrá-las, apoiá-las, além de, conforme a tendência, dar um sentido de identidade alargada.

E porque é que há quem não as siga?
É difícil não seguir alguma tendência, nem que seja a de recusar tendências… No entanto, eu diria que muitas pessoas receiam, com razão, que a sua individualidade se perca se forem levadas simplesmente a fazer o que os outros fazem, pensar o mesmo que pensam ou até sentir o mesmo que sentem. Receiam o espírito de rebanho. Por vezes também receiam que a sua natural inclinação para procurarem companhia e para se integrarem na sociedade as traia, facilitando a manipulação.

As grandes empresas gostam de ter consumidores fidelizados e previsíveis – a previsibilidade dos mercados é um garante de lucro. Portanto, não há como criar tendências que assegurem vendas

Quem cria hoje as tendências?
Hoje, infelizmente, muitos usam técnicas de engenharia social para, sobretudo por motivos económicos ou políticos, “encaminhar” as pessoas em direções úteis para os grupos que servem (sendo certo que a política anda muitíssimo subordinada/vendida à economia).

As grandes empresas gostam de ter consumidores fidelizados e previsíveis – a previsibilidade dos mercados é um garante de lucro. Portanto, não há como criar tendências que assegurem vendas. A tendência para a ecologia assegura vendas de carros supostamente ecológicos mesmo que não seja bem assim; a tendência para a solidariedade sensibiliza o público para comprar produtos de empresas que se apresentam como filantrópicas – mesmo quando mentem descaradamente a esse respeito…

Infelizmente são muitos os que auscultam os desejos das pessoas, mesmo as mais bem-intencionadas, para os usarem a fim de assegurar consumismo. Por exemplo, muita gente está a ser levada a acreditar que o nosso maior problema consiste na natureza dos materiais de que as coisas são feitas, deixando “esquecido” o tema da durabilidade, propositadamente curta, das mesmas coisas. Poluo talvez menos com um frigorífico que dura cem anos do que se tiver de comprar dez frigoríficos nesse tempo. Há que abrandar o suposto progresso técnico e acelerar o progresso ético.

O psicólogo Vítor Rodrigues é autor de livros como “Constrói a tua Felicidade – da Depressão ao Bem-Estar”, “Tranquila-Mente”, “Teoria Geral da Estupidez Humana” ou “O Consumista Heróico”.

Quem é que segue mais as ondas?
Infelizmente eu diria que as pessoas que mais facilmente seguem tendências mais ou menos “fabricadas” são as menos informadas, por vezes as mais impulsivas e emotivas, por vezes as mais fragilizadas pela necessidade de pertencerem a grupos sociais, de serem aceites e apreciadas. Por isso mesmo, as mais informadas e, por vezes, mais criativas e inteligentes tendem a ser mais difíceis de manipular, tal como as mais maduras em termos emocionais.

As redes sociais são, por vezes, um dos terrenos de caça favoritos para as empresas predadoras que se especializam em encontrar padrões entre os medos, desejos e atitudes dos potenciais consumidores.

Com a globalização, as redes sociais e a rapidez a que tudo anda, a tendência é para uma ainda maior massificação – ondas gigantes que arrastam tudo – ou, pelo contrário, para pequenas ondas, apanhadas por quem quer ser diferente?
Existe uma grande massificação e as redes sociais são, por vezes, um dos terrenos de caça favoritos para as empresas predadoras que se especializam em encontrar padrões entre os medos, desejos e atitudes dos potenciais consumidores e os produtos que podem ser levados a adquirir. Procurar levá-los a ter emoções “apropriadas” torna mais previsível o que irão comprar ou em quem votarão.

Anda insegura? Tem medo dos bandidos que andam a fazer das suas? Vote em mim, sou um tipo forte, seguro, que favorece a pena de morte e tem mão pesada para os malvados.

Sente-se insatisfeita e carente de relacionamentos? Já viu como a minha marca de refrigerantes convida à amizade, à ternura e ao sexo?

Para quem gosta de pertencer ao grupo dos “diferentes”, tenho CD com músicas revoltadas para vender ou camisolas com caveiras ou videojogos cheios de revoluções com mortos e feridos e muito sangue. Também tenho livros sobre minorias.

Com a multiplicação de identidades, o que acontecerá às tribos?
Penso que as tribos continuarão a existir. Fazem parte do grau em que ainda tendemos a procurar sentir que pertencemos a grupos, cuja identidade se define por bandeiras, marcas, signos, slogans, etc.

O problema é que, cada vez mais, as grandes empresas procuram chegar ao ponto de criarem tribos a fim de lhes impingirem produtos de modo previsível. O que se chama branding tem tudo que ver com isso. Algumas pessoas batem-se para ter produtos de certas marcas “que dão prestígio” sem sequer fazerem a menor ideia da sua qualidade real, se são ecológicos, socialmente justos, e por aí adiante.

Neste momento, creio que há um branding de ideias, que leva muitas pessoas a recear pensar “fora de certas caixas” com medo da fúria social.

Não me diga que acredita que os homens e as mulheres são diferentes? Ou pior, não me diga que se esquece, na sua escrita, de respeitar integralmente gays, lésbicas, transexuais, bissexuais, heterossexuais, assexuais, parassexuais, parafílicos?

O branding de ideias pode ser muito aproveitado politicamente. Os eleitos serão os campeões das ideias tornadas norma social ditatorialmente imposta pelo medo de ser diferente. Por sua vez, os políticos eleitos poderão, depois, cumprir com as suas promessas a quem os comprou…

As grandes tribos da atualidade são as definidas por ideias popularizadas e em sintonia artificial com os medos e os desejos das pessoas. Por exemplo, marcas desportivas que estão associadas a força, elegância, ousadia e sexo.

O chamado politicamente correto é a grande cartada em termos de marketing social?
Penso que é das maiores cartadas. Mais uma vez, torna uma grande parte da população previsível, quanto mais não seja pelo medo de ser diferente.

Quais são as grandes tribos da atualidade?
São tribos definidas por ideias popularizadas e em sintonia artificial com os medos e os desejos das pessoas. Por exemplo, marcas desportivas que estão associadas a força, elegância, ousadia e sexo.

Ou ideias-modas ligadas (de modo mais do que artificial) a definições do que é ser um bom humano. Há a tribo dos que adoram detestar, a dos que detestam adorar, a dos que tentam fuzilar todos os que discordam do direito à eutanásia, a dos que são favoráveis à ecologia. Só têm um problema: no seu pior, estas tribos não têm alma. São bichos artificiais.