«É fácil manipular notícias e redes sociais para criar efeitos de ódio e medo»

Vítor Rodrigues maldade

Ser humano é muito complicado. E então no que diz respeito à maldade nem se fala, afirma o psicólogo clínico Vítor Rodrigues. É ele quem responde a estas perguntas sobre o lado negro que todos temos.

Entrevista de Ana Pago

Ao contrário da bondade, tentamos sempre atribuir a maldade a causas alheias ao indivíduo, como a doença mental. Porquê a necessidade de nos distanciarmos em vez de assumirmos, e aceitarmos, esta parte mais obscura de nós?
Gostamos de apreciar o que vemos ao olhar-nos ao espelho e a verdade é que perceber os nossos pontos fracos, os defeitos e assuntos mal resolvidos, pode doer bastante – o nosso lado sombra não fica assim tão bem na fotografia. E no entanto todos podemos ter lados muito maus, apesar de os conseguirmos ver melhor nos outros. Muitos de nós podem facilmente tornar-se corruptos, agredir, roubar, enganar e maltratar se a ocasião for propícia, seja na forma de impunidade ou de circunstâncias que nos fazem perder de vista ideais, valores e razões para sermos melhores.

O que leva tanta gente a identificar-se com políticas más como recentemente com a eleição de Bolsonaro, alguém que defende publicamente a tortura, a violência, o racismo e a intolerância?
Em alturas de caos social e crise económica, a população tende a aceitar e até a querer ditadores que reinstalem alguma ordem e recuperação económica, mesmo que perca alguns direitos nesse processo. Terá sido o caso de Salazar em Portugal, mas já no tempo dos Romanos isso acontecia (e depois acabavam por ter que se livrar do ditador). A exibição de violência por parte dos media e da indústria de entretenimento transmite a ideia de que a brutalidade policial é aceitável se formos os bons. E é como lhe dizia: em troca de um maior sentimento de segurança, as pessoas aceitem perder parte da sua liberdade e até desejem que venha um salvador para punir os malvados e repor a ordem.

«O famoso 11 de setembro, por exemplo, deu jeito para levar parte do mundo a aceitar ser alvo constante de videovigilância»

De novo, como em tantas alturas da história, há aqui um efeito de massas a fazer as coisas avançarem descontroladamente. Quase como se as pessoas não se importassem de defender e fazer coisas más porque a responsabilidade fica diluída entre os membros do grupo…
É fácil manipular notícias e redes sociais para criar efeitos de ódio e medo, usando-os em seguida para levar as populações a acreditarem que a salvação implica aceitar medidas que, de outra forma, seriam inaceitáveis. O famoso 11 de setembro, por exemplo, deu jeito para levar parte do mundo a aceitar ser alvo constante de videovigilância. Mesmo as séries televisivas de vários países apresentam-na como uma maneira formidável de localizar e capturar os maus, sem realçar em nada a perda de privacidade.

«Os meios de comunicação optam por dar más notícias e exibir os seres humanos no seu pior, não no seu melhor. Isso insensibiliza.»

Estudos sugerem que não mais de dez por cento das pessoas conseguem ficar imunes às situações que as levam a agir com maldade. Não sendo muito animador, significa que podemos resistir-lhe, apesar de tudo…
Estou de acordo. Infelizmente, andamos a ser expostos diariamente a exibições de maldade que parecem quase sancionadas pelos governos, empresas e meios de comunicação. Optam por dar más notícias e exibir os seres humanos no seu pior, não no seu melhor. Isso insensibiliza.

O que explica que personalidades sinistras sejam tão fascinantes?
A transgressão pode ser muito sedutora ao mostrar-nos possibilidades que por norma não consideramos. Além disso, gostamos de quebrar a normalidade, ficamos curiosos com o que é novo ou diferente. Também gostamos de alguma adrenalina controlada: perceber alguma coisa sobre psicopatas pode ser interessante, excitante, soar a perigo, mas daí a querermos estar com um, viver com ele, confrontá-lo ou até ser como ele vai uma grande distância.

Tudo indica que somos os únicos animais capazes de construir uma ética e de refletir sobre nós mesmos e a sociedade.

A noção de maldade é sempre uma questão de contexto? Regra geral, nunca somos tão bons como achamos que somos?
Muitas pessoas são bem melhores do que creem ser, às vezes só têm uma autoestima baixa. Também é certo que somos rápidos juízes de causas alheias e pensamos logo que alguém está certo ou errado sem termos os dados todos, a sentir-nos melhores do que eles e a achar que nunca faríamos tão mal. E isto quando a realidade mostra que muitas pessoas que antes se tinham na conta de boa gente podem, por exemplo em circunstâncias de guerra, fazer coisas abomináveis. Depois intelectualizam as razões para atos baseados em instintos ou emoções nada agradáveis.

E seremos nós os únicos animais capazes de refletir sobre erros e consequências? Ainda que possamos não ser os únicos capazes de cometer maldades?
Aparentemente sim. Embora alguns animais pareçam capazes de certa medida de autoconsciência, uma vez que se reconhecem num espelho, tudo indica que somos os únicos capazes de construir uma ética e de refletir profundamente sobre nós mesmos e a sociedade em que vivemos.

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