Viver com diabetes não tem de ser um problema

«Não há a diabetes infantil. Há a diabetes», diz Júlia Galhardo, médica pediatra, especialista em obesidade e diabetes. É uma doença para a vida, que implica cuidados. Sandra e Pedro são diabéticos desde crianças. Hoje, jovens adultos, ganharam maturidade e dominam a doença, mostrando-lhe «quem manda».

Texto DN Life | Fotografias Shutterstock

«Uma doença de restrições». Foi assim que a diabetes tipo 1 foi apresentada a Pedro Pereira. Tem 20 anos e lida com a doença desde os seis. Doces, salgados e hidratos de carbono ficaram fora do prato. Deixou de ir a atividades desportivas organizadas pela escola, porque os professores recusavam-se a levá-lo.

A especialista em diabetes, Júlia Galhardo, explica que «a alimentação dos diabéticos não tem de sofrer alterações. Os diabéticos tipo 1 podem ter uma alimentação igual às outras pessoas, desde que seja equilibrada e saudável.»

«Com o passar do tempo e com a evolução dos tratamentos percebi que posso comer e fazer de tudo», diz Pedro.

É tudo uma questão de contas. À medida que vão aprendendo a lidar com a diabetes, os pacientes habituam-se a contar tudo o que comem. «É fundamental que tenham a noção de quantas porções de alimentos ingeriram, para depois compensar com a insulina», acrescenta a especialista.

Foi assim que Pedro começou a controlar a doença, «com o passar do tempo e com a evolução dos tratamentos percebi que posso comer e fazer de tudo.»

É importante perceber que a diabetes não escolhe idades e é crónica. «A diabetes deriva da elevada quantidade de açúcar que está no sangue, mas que o corpo não processa. Toda a gordura no corpo é transformada em açúcar».

Há dois tipos de diabetes. A diabetes tipo 1, também conhecida como insulino-dependente, que é mais rara e atinge na maioria das vezes crianças ou jovens, podendo também aparecer em adultos e até em idosos, de acordo com o Portal da Diabetes. Neste caso, as células ß do pâncreas deixam de produzir insulina uma vez que estas células produtoras de insulina são destruídas. As causas da diabetes tipo 1 não são, ainda, totalmente conhecidas.

Já a diabetes tipo 2, segundoo mesmo portal, é a forma mais comum da doença e é causada por um desequilíbrio no metabolismo da insulina. Está relacionada com estilos de vida e alimentação pouco saudáveis e tem como principais fatores de risco a obesidade, o sedentarismo e a predisposição genética.

Na diabetes tipo 2 existe um défice de insulina e resistência à mesma, o que leva a que seja necessária uma maior quantidade de insulina para a mesma quantidade de glicose no sangue. Por isso as pessoas com maior resistência à insulina podem, numa fase inicial, apresentar valores mais elevados de insulina e valores de glicose normais. À medida que o tempo passa, o organismo vai tendo maior dificuldade em compensar este desequilíbrio e os níveis de glicose sobem.

Embora tenha uma forte componente hereditária, este tipo de diabetes pode ser prevenido controlando os fatores de risco modificáveis.

«Há um grande conhecimento dos sintomas da diabetes. Antigamente, os miúdos perdiam muito peso, bebiam muita água e, consequentemente, iam muitas vezes à casa de banho», esclarece Júlia Galhardo. Cansaço, fadiga, aumento de apetite, excesso de sede e frequência nas idas à casa de banho são sintomas que não devem ser ignorados.

«A diabetes é uma doença que influencia a família. A atenção por parte dos pais e restantes familiares tem de ser reforçada», diz a nutricionista Jennifer Duarte.

Há dez anos que o ritual é o mesmo: picar o dedo e dar insulina antes das refeições. Sandra Matoso, agora com 21 anos, tem diabetes tipo 1 desde os onze. A nível prático adaptou-se bem, mas a nível psicológico ressentiu-se. «Foi um grande choque, de repente disseram-me que o meu modo de vida ia alterar-se a, pelo menos, 180 graus.»

A revolta, a preocupação e o cuidado por parte dos pais formaram um misto de emoções.
Aprender a lidar com a nova rotina não foi tarefa fácil. «Ao início tive um controlo muito rigoroso e um acompanhamento constante. Mas, hoje, faço a minha vida tal como os meus pais. Tivemos de nos moldar», explica Sandra.

Segundo a nutricionista e representante da Associação de Jovens Diabéticos em Portugal (AJDP), Jennifer Duarte, «a diabetes é uma doença que influencia a família. A atenção por parte dos pais e restantes familiares tem de ser reforçada.»

Independentemente da faixa etária, tende a existir um período de negação após o diagnóstico da doença. Pedro não foi exceção. «Foi díficil aceitar a doença, principalmente, por ter sido diagnosticada no início do meu percurso escolar», conta o jovem, que foi mostrando aos outros – e a si mesmo – que não havia restrições.

Fomentar a independência, partilhar experiências e criar laços. São os principais objetivos das colónias de férias organizadas pela APDP.

Desde 2012, que Pedro integra o núcleo Jovem da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP). Representa-o nos encontros, nas expedições, em programas televisivos e outras atividades. «Os encontros têm diversos temas e são de caráter informal, com o objetivo de durante e após a apresentação serem discutidos alguns assuntos», explica.

Para além dos encontros, a APDP organiza também um campo de férias anual para jovens com diabetes e fins de semana desportivos. Em 2017 realizaram a expedição ao ponto mais alto da Península Ibérica, a Mulhacén, no sul de Espanha.

Fomentar a independência, partilhar experiências e criar laços. São os principais objetivos das colónias de férias organizadas pela APDP. Durante o mês de julho, a diversão alia-se a um estilo de vida saudável, com o intuito de provar aos mais novos que é possível ter um crescimento normal.

«A associação desmistifica a ideia de que a doença é incapacitante», explica Jennifer Duarte. Todos os meses, há um dia marcado na agenda para uma caminhada. Estas têm uma duração de quatro a cinco horas e contam com a presença de 50 a 60 pessoas. «O importante é superarem os medos», diz.

Sandra e Pedro adaptaram-se a esta vida desde cedo. Olham para a diabetes como algo natural. Como diz a jovem, «já é mecânico.»