Viver mais e evitar doenças? Não leve o telemóvel para a cama, diz Nobel da Medicina

Depois de anos a apontar o dedo aos notívagos, por se achar que se não se deitavam mais cedo era porque não queriam, cientistas descobriram agora que afinal não é bem assim. A culpa, ao que parece, é de um gene que nos baralha o relógio biológico. E do telemóvel também.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

É uma verdade absoluta dos organismos vivos, seres humanos incluídos: todos temos um relógio biológico que nos ajuda a adaptar ao ritmo regular diário. Só ainda se desconhecia o mal que levar o telemóvel para a cama faz ao gene que controla o ritmo circadiano, mas até isso já se sabe e é grave, avisa Michael W. Young, biólogo da Universidade Rockefeller e Nobel da Medicina de 2017, partilhado com os cientistas Jeffrey C. Hall e Michael Rosbash. Mas vamos por partes.

Em conjunto, a partir de experiências com moscas-da-fruta, os três investigadores americanos não só isolaram um gene que controla o ritmo biológico diário normal, como determinaram que esse mesmo gene – chamado CRY1 – codifica uma proteína que se acumula nas células durante a noite e é depois degradada durante o dia.

Humanos, animais e plantas adaptam os seus ritmos biológicos para estarem sincronizados com os movimentos de rotação da Terra.

A descoberta inédita mostrou como os humanos, animais e plantas adaptam os seus ritmos biológicos para estarem sincronizados com os movimentos de rotação da Terra. De uma assentada, revelou ainda o mecanismo através do qual os nossos relógios internos regulam funções essenciais como o sono, comportamento, nível de hormonas, temperatura corporal e metabolismo ao longo do dia.

Sempre que se verifica um desajuste temporário entre o ambiente externo – em que a luz é o principal fator – e este relógio interno (como sucede por exemplo numa experiência de jet lag), o nosso bem-estar é afetado.

Mutação genética é o que faz tanta gente ficar a pé noite adentro e lutar com o despertador de manhã, por ter o relógio biológico programado para funcionar mais tarde que os demais.

A boa notícia, segundo um novo estudo da Universidade Rockefeller publicado na revista Cell, é que, uma vez identificado o CRY1, pôde definir-se a mutação genética que faz tanta gente ficar a pé noite adentro e lutar com o despertador de manhã, por ter o relógio biológico programado para funcionar umas três horas mais tarde que os demais.

“É como se tivessem um jet lag perpétuo. Quando a manhã chega, ainda não estão prontos para o dia seguinte”, explica o Nobel Michael Young, um dos autores da pesquisa, em entrevista ao portal de ciência Scimex.

Para Alina Patke, a especialista em genética que conduziu a pesquisa, o problema passa sobretudo por as pessoas com esta mutação terem mais horas num dia do que as 24 regulamentares, a coincidir na perfeição com o ciclo-padrão do planeta. “Isto faz com que tentem compensar em permanência essa diferença”, diz a investigadora, com esperança de que os resultados se traduzam em novos medicamentos e numa melhoria da qualidade do sono.

Telemóveis na cama e outros estímulos visuais podem piorar uma condição que afetará cerca de dez por cento da população mundial.

E não, não é só a genética que faz das suas junto dos notívagos, alertam os cientistas, que sublinham estar provada a relação entre sonos tardios e uma série de doenças como a depressão, diabetes, obesidade e problemas cardiovasculares. Ecrãs de telemóvel e iPads na cama, a par de outros estímulos visuais do género, podem definitivamente piorar uma condição que, estimam, afetará cerca de dez por cento da população mundial.

“Uma pessoa até pode ter uma disposição natural para ficar acordada até tarde, porém essa tendência irá agravar-se se ela insistir em passar duas horas sentada diante do ecrã brilhante de um computador até às duas da manhã”, reitera Patke. “Se isso é mau para toda a gente, imagine-se para alguém que sofra deste atraso.”

Para Teresa Paiva, a ideia de que “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer” não funciona para um notívago, de todo.

Segundo a neurologista Teresa Paiva, a ideia de que “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer” não funciona para um notívago, de todo. O ditado foi de certeza inventado por um matutino.

“É estúpido aplicar isso a toda a gente. Cada um tem as suas horas e isto é tão biológico como ser moreno, louro, alto ou baixo, é algo que não se pode forçar”, desmistifica aquela que é considerada a maior especialista em sono de Portugal. Quem se deita mais tarde não se pode levantar cedo por rotina. “Acima de tudo, o importante é que durma bem”, diz.