Voluntários: Quando a ajuda vem de desconhecidos

Em 2011, o INE contabilizava 1,040 milhões de pessoas que já tinham feito trabalho voluntário. Foi a última vez que se fez as contas à generosidade dos portugueses, mas os números não devem ser muito diferentes dos de hoje. O que mais importa é o objetivo de quem dá o seu trabalho: ajudar. Uma pessoa, uma causa ou uma instituição. Fomos conhecer três organizações que não existiriam sem o empenho e a generosidade do trabalho voluntário.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografias de Mário Ribeiro

Na Just a Change são todos voluntários, que se reúnem para, com o apoio de parceiros locais, reabilitar casas de pessoas com dificuldades. Em oito anos, a organização contabiliza já mais de 124 intervenções, entre casas de família e instituições.

Beatriz, estudante de Gestão de Marketing em Lisboa, com 19 anos, juntou-se recentemente à Just a Change. Foi o testemunho de alguém próximo que a sensibilizou para a causa e a levou a querer partilhar a experiência.

15 da população portuguesa já fez trabalho voluntário pelo menos uma vez.

O mesmo aconteceu com João Tavares, estudante de Engenharia Eletrotécnica, ou Sofia Durão, estudante de Economia. O «passa-palavra», especialmente «entre universitários», é a principal forma de angariação de voluntários da Just a Change, diz Rita Lucena, diretora de Comunicação e Fundraising, que se juntou à equipa em setembro último.

«Existem cerca de quatrocentos voluntários ativos em Lisboa e mais quatrocentos no Porto. Normalmente, reabilitamos duas casas de cada vez, em cada uma das cidades. Esta, por exemplo, é de um senhor que aqui vivia há 25 anos. Não tinha saneamento, o chão e o teto estavam destruídos e eram necessárias obras urgentes», diz a responsável.

Beatriz, João e Sofia, voluntários da Just a Change, partilham as tarefas distribuídas pelo mestre-de-obras, Samuel, para restaurar uma casa a precisar de intervenção urgente. O beneficiário verá o resultado final ainda este mês.

Samuel, o mestre-de-obras, supervisiona os jovens e aconselha-os da melhor forma que sabe. «Sem eles [os voluntários] nada disto se fazia. Para mim é uma enorme satisfação e é muito gratificante pertencer ao trabalho desta associação. Sinto-me muito útil», diz, enquanto vai organizando as tarefas de cada um dos voluntários.

Jaden Hoffman, norte-americano de 18 anos – que se juntou à Just a Change através da Impact Trip, operadora de turismo responsável em Portugal –, ajuda Luís Todo Bom, estudante de Finanças em Lisboa, a raspar o piso de cimento, visivelmente degradado.

Enquanto isso, Beatriz assenta azulejos numa paredes e João e Sofia têm também a tarefa de uniformizar o piso. Este turno começou pelas 14h00 e termina às 18h00. O da manhã realiza-se entre as 09h00 e as 13h00. Cada equipa, formada por cinco elementos, compromete-se a fazer um destes turnos de quinze em quinze dias.

Se tudo correr como planeado, Alfredo (nome fictício), de 68 anos, poderá regressar a casa já neste mês e «recomeçar tudo de novo». «Acreditamos que sempre que entregamos uma casa há um recomeço na vida destas pessoas», diz Rita Lucena.

Os animais são nossos amigos

Rita tem 27 anos e está em Lisboa há dois. Natural de Alcobaça, tinha vontade de fazer voluntariado e decidiu juntar-se à União Zoófila. Há cerca de um ano abraçou a causa dos animais e mostra-se orgulhosa da sua decisão. «Apesar de haver sempre muito trabalho, sinto-me muito útil. Saio daqui sempre feliz», diz. Uma vez por semana, durante quatro horas, Rita abre as boxes dos animais, faz as camas dos cães, lava e seca as mantas onde dormem, escova-os e, «muito importante», dá-lhes mimos.

Este é o trabalho dos cerca de trinta a quarenta voluntários que a União Zoófila tem e que é distribuído entre o canil e o gatil. Além disso, os cães e gatos são também visitados pelos padrinhos, que muitas vezes os levam a passear fora das instalações da associação. Os voluntários têm um papel muito importante na vida da associação, diz Margarida Saldanha, da direção.

O gatil da União Zoófila tem cerca de 200 gatos nas suas instalações. Muitos deles são abandonados nas ruas e encontrados em caixotes do lixo.

«A equipa de voluntariado, gente de várias idades, é fundamental para o funcionamento deste espaço. E nunca são de mais. Ter mais mão-de-obra é muito importante. Aliás, tudo o que é “mais” é sempre bem-vindo aqui», diz a responsável, que aproveita para apelar também à responsabilidade social das empresas: «Era essencial para nós que um patrocinador, talvez a nível empresarial, conseguisse apadrinhar uma boxe, por exemplo. Desta forma conseguiríamos ter um apoio constante e não só quando estamos aflitos».

Com mais de quinhentos cães e cerca de duzentos gatos, «sem contar com os que estão com as famílias de acolhimento», que assumem a responsabilidade de adotar o animal até que seja encontrado um dono, a União Zoófila sensibiliza constantemente – sobretudo através das redes sociais – para a adoção destes animais, encontrados na rua, abandonados e/ou agredidos pelos donos.

Enquanto estivemos na União Zoófila, um gato foi adotado e outras duas famílias procuravam um novo companheiro felino para as suas casas. Os cães, neste dia, não estavam com muita sorte. Mas, pela tarde, chegaram padrinhos, que diariamente vêm passeá-los.

O Orfeu, o Viriato, a Brisa, o Norte e o Sul, entre muitos outros, são, muitas vezes, entregues na União Zoófila porque, enumera Margarida, os cuidadores «se divorciam, deixam de ter empregada doméstica, mudam de casa, vão de férias ou, simplesmente, já não querem aquele animal».

O canil da União Zoófila tem 170 boxes, cinco armazéns, uma enfermaria e uma lavandaria. O gatil, muito mais pequeno, tem nove gatos e uma enfermaria.

«As mentalidades ainda não mudaram totalmente. Ainda hoje encontramos animais em sacos de plástico. Mas vai-se lá chegar. Vai-se lá chegar», diz a responsável da União Zoófila, esperançosa.

Catarina, de 23 anos, é uma das voluntárias sénior da organização. Há três anos a acompanhar os animais da União Zoófila, reparte, nesta tarde, o seu trabalho com Rita. Enquanto as mentalidades não mudam, Margarida, Rita e Catarina vão mostrando como o altruísmo e a disponibilidade não são assim tão difíceis de conciliar.

Em si todos os sonhos do mundo

Francisca Nunes tornou-se perita em realizar sonhos. É isso que faz na Terra dos Sonhos, atualmente com sede em Lisboa, na Rua Mécia Mouzinho de Albuquerque. As iniciativas são destinadas a crianças e jovens com doenças crónicas ou institucionalizadas e a idosos.

«Para a realização destes desejos são criadas as equipas de sonho, normalmente com dois voluntários que se candidataram previamente, a quem é dada depois uma pequena formação e o historial da criança», explica a responsável pelo Laboratório dos Sonhos desta IPSS.

Sofia Rutkowski, ex-voluntária, é agora funcionária da Terra dos Sonhos, mas assumiu como sua a missão de realizar o sonho de Carolina (nome fictício), «porque acompanhava o caso já há muito tempo através do IPO». Aos 9 anos, Carolina foi diagnosticada com leucemia.

Esteve três anos em tratamentos e em janeiro último deixou a quimioterapia. O seu sonho era ter um cabelo como as suas colegas da escola. O dela não voltou a crescer após os tratamentos. E a Terra dos Sonhos entrou em campo.

860 portugueses fizeram ações de voluntariado missionário em 2016.

Em parceria com uma multinacional ligada a produtos de cosmética, Carolina escolheu a cabeleira de que mais gostava e ainda fez um workshop de maquilhagem para aprender desenhar as suas próprias sobrancelhas. Aos 13 anos, a menina sente-se mais igual.

Mas as surpresas não ficaram por aqui. Na sala em que sobressai o excerto de Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), «tenho em mim todos os sonhos do mundo», Carolina descobre que os próximos dias vão ser passados com a família no lugar com que sempre sonhou: a Eurodisney. Tão felizes como a jovem madeirense de voz tímida e atitude reservada estão Francisca e Sofia, realizadoras de sonhos.


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