#Wo(man)rights

Gosto de ser mulher.

Gosto de nascer e ser olhada pelos adultos com um amor desmedido, desejosos de cuidar de mim e proteger-me contra tudo e contra todos.

Não gosto de nascer e ser morta ou mutilada, para que os meus pais possam ainda tentar a “sorte” de dar à luz um menino.

Gosto de crescer livremente e poder escolher as brincadeiras que quero fazer. Sejam elas de princesas ou piratas, de fadas ou cowboys, de bonecas ou carrinhos.

Não gosto que condicionem as minhas brincadeiras nem as histórias que invento, reduzindo-me à condição de uma menina, a quem certas coisas não ficam bem.

Gosto de aprender a ler e a escrever e de descobrir o mundo através das pontas dos dedos, desfolhando livros como quem desfolha universos desconhecidos.

Não gosto de ficar longe de uma escola porque é vista como perigosa, pelas aprendizagens que proporciona e pelas descobertas que potencia.

Gosto de descobrir a paixão e o enamoramento, aqueles sentimentos que nos dão a volta à barriga e nos fazem subir até à lua. E depois decidir se quero, ou não, namorar.

Não gosto de estar presa numa relação tóxica pautada por restrições e imposições, com alguém que me diz o que posso ou não posso fazer.

Gosto de poder decidir, em consciência, se quero ou não casar. Com quem eu quiser e quando eu quiser.

Não gosto de ser obrigada a casar ainda menina, presa a tradições e culturas que não me permitem ter tempo para crescer.

Gosto de me maquilhar e perder horas sem fim entre sombras e batons, experimentando novos looks que me fazem sentir a rainha das passerelles. Ou andar de cara lavada, que realça o brilho dos meus olhos.

Não gosto que me encerrem numa prisão de pano e obriguem a ver o mundo através de uma rede, por entenderem que devo comportar-me em público de uma forma modesta.

Gosto de passear em lojas de roupa e conhecer novas coleções, imaginando que sou a musa inspiradora de um qualquer criador francês. Ou passear em fato de treino. Ou em pijama, se me apetecer.

Não gosto que decidam por mim sobre que partes do corpo posso, ou não, manter descobertas. E que entendam o meu corpo descoberto como uma oferenda sexual.

Gosto de dizer o que penso e o que sinto às pessoas com quem me relaciono. E se decidir manter uma relação amorosa, que as regras sejam as mesmas.

Não gosto de fazer de conta que não penso e que a minha opinião não tem valor, ou de me calar por receio de ser vítima de qualquer tipo de violência.

Gosto de saber que, caso seja vítima de violência, serei ajudada e protegida, num mundo em que os agressores são responsabilizados pelos crimes que cometem.

Não gosto de ter medo de pedir ajuda, por receio de represálias ou de ser apelidada de imoral e desonesta, num mundo em que os agressores humilhados tudo podem. Bater, apedrejar e até matar.

Gosto de reconhecer a minha sexualidade e decidir se quero, com quem quero e como quero vivê-la.

Não gosto de ser mutilada de uma forma bárbara e assustadora, esvaindo-se com o meu sangue a possibilidade em ser saudável, sentir prazer ou dar à luz sem morrer no parto.

Gosto de votar e exprimir a minha opinião sabendo que, mesmo sendo diferente, será respeitada.

Não gosto de ser excluída das decisões importantes que nos afectam a todos e assistir passivamente às mudanças políticas do meu país.

Gosto de decidir se quero ficar em casa a preparar o jantar ou se prefiro ir trabalhar e, por vezes, nem jantar.

Não gosto que me imponham o recato do lar e a vida doméstica como condição feminina, imprescindível para o bom funcionamento dessa instituição a que chamam casamento.

E também não gosto de trabalhar e sentir que o meu trabalho tem menos valor.

Gosto de decidir se quero, ou não, ser mãe. E caso queira, se sigo o caminho da biologia ou o caminho do coração.

Não gosto que me olhem de lado se afirmo que não quero assumir um papel maternal. Ou se prefiro adoptar uma criança, ao invés de gerá-la dentro de mim.As Nações Unidas proclamaram o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher, em 1977. Mas já desde 1911 que o Dia da Mulher é celebrado em muitos países, como uma forma de reconhecer a importância e o contributo da mulher na sociedade. Passaram 108 anos desde que a data foi assinalada pela primeira vez.

Assistimos a muitas mudanças importantes durante este período de tempo, é certo, mas muitas outras faltam ainda concretizar-se.

Lutemos por um mundo livre de preconceitos, sejam eles raciais, sexuais, políticos, culturais, linguísticos ou económicos, em que todas as mulheres possam dizer, de cabeça erguida, GOSTO DE SER MULHER.